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A França respira aliviada. Mas o cenário ainda preocupa

Emmanuel Macron venceu Marine Le Pen por 66,10% a 33,9%. Uma vitória com folga, mas ainda assim em um cenário preocupante. Marx, em 1848, começava o Manifesto Comunista com a conhecida frase: “um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo”. Hoje, numa versão atualizada, poderíamos dizer que o espectro, não só na Europa, é o da extrema-direita.

Ainda que Macron tenha se consagrado com uma vitória contundente, a Frente Nacional aumentou significativamente sua votação. O pai de Le Pen, quando era candidato na primeira vez que a FN chegou ao segundo turno das eleições nacionais, contou com 18% dos votos. Dessa vez, na segunda disputa de segundo turno do partido, o resultado quase chegou aos 34%, conseguindo mais de dez milhões de votos.

Outro indicador importante foram os eleitores ausentes, os votos brancos e nulos. Dos 47 milhões de eleitores franceses, 12 milhões não votaram (25%), além dos quatro milhões que votaram branco ou nulo. Abstenção maior que essa só aconteceu em 1969, logo depois do “Maio de 68” francês, que elegeu o congresso mais conservador da França. Muito embora esse tenha sido um momento de valorização de ideias mais à esquerda, de tomada de espaços públicos e fábricas, uma das bandeiras era “eleição, arma para imbecil”. Não é de se admirar as ausências nas eleições, tampouco o congresso eleito. Lembro de Alain Badiou em A Hipótese Comunista que afirma: “É melhor não fazer nada do que contribuir para a invenção de maneiras formais de tornar visível aquilo que o Império já reconhece como existente”.

O crescimento dessas opções de ultra-direita vem criando corpo nos últimos anos, com a expressão mais evidente nos Estados Unidos depois da eleição de Trump. Em parte porque a polarização, ainda que forcemos a encontrar, não existe de verdade. Forçamos ao máximo – e fez sentido naquele momento – uma polarização Trump e Hillary, quando o verdadeiro antagonismo seria entre Trump e Sanders. Isso porque a inquietação popular que embasou o populismo de Trump foi a mesma que criou Sanders, ainda que em sentidos opostos. Na França, quem representava a oposição a Le Pen era Jean-Luc Mélenchon, o candidato do extremo oposto, mas que ficou de fora do pleito no segundo turno. Com sorte, as eleições não tiveram o mesmo fim que as estadunidenses.

Aqui no Brasil o acirramento política só se aprofunda desde 2013. Um discurso alinhado ao status quo ou ainda de reafirmação de um passado mais progressista, pode não ser suficiente para fazer oposição ao populismo de extrema direita de possíveis candidatos à presidência. É preciso ser mais sensível às demandas da população e parar de ter medo de assumir posições mais radicais, de denunciar injustiças e propor saídas populares para as crises.

O espaço para saídas consensuais vem se estreitando cada vez mais, enquanto o populismo de direita nada de braçada noutras vias. Stalin certa vez foi questionado sobre o que ele achava pior, a direita ou a esquerda, ele imediatamente rebateu: “Os dois são piores!”. Nessa lógica, não raro somos levados a escolher o “menos pior”. Acontece que essa escolha já dá sinais de esgotamento.

Ou ousamos voltar a sonhar, ou Trumps, Le Pens e Bolsonaros continuarão crescendo.

por Pedro Veríssimo

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2 comments

  1. Esse fato já vem sendo sinalizado desde 2012, é um movimento contínuo muito em função da crise de 2008, mas não sendo essa a única explicação e nem o único fator para essa “guinada” do eleitorado à direita, nas crises tende-se a ser mais conservador mesmo, porém, não podemos deixar de destacar o papel dos meios de comunicação que participam ativamente, até como militantes políticos, dessas idéias extremistas. A disseminação do ódio (contra todos os movimentos sociais e “minorias”) e a formação de um quadro caótico no qual só o movimento conservador de extrema direita – que em alguns casos é o agente provocador da crise – traz em si a solução para a mesma!

    https://www.diarioliberdade.org/mundo/antifascismo-e-anti-racismo/27471-a-crise-capitalista-e-a-extrema-direita.html