Home / Cinema / Aquarius

Aquarius

Eu sei que cheguei atrasado pra festa. O filme Aquarius já foi assistido, debatido e usado como exemplo em textos deste tipo que vocês estão lendo agora. Mas ainda assim insistirei. Vai que, assim como eu, outros perderam o “timing” (palavra da moda) e ainda não assistiram ou não leram nada a respeito. Pois bem, ao texto:

Aquarius, primeiramente, é um filme bonito (“tem uma boa fotografia” dirão uns mais sabidos no tema) e conta com uma trilha sonora bem legal. Mas chama atenção a trama: Clara, interpretada por Sônia Braga, é dona do último apartamento do Edifício Aquarius, os demais já foram comprados por uma construtora que pretende construir um novo empreendimento. A grande trama, então, são as ameaças veladas que o representante da construtora faz a Clara para pressioná-la a vender sua casa. Num primeiro momento, a mensagem que se procura passar diz respeito à especulação imobiliária, com ofensivas desleais de grandes construtoras no que ainda resta de “velho” nas cidades para darem lugar aos condomínios de alto padrão e muros altos. É no meio dessa trama de resistência que outros conflitos se instalam.

As pequenas lutas

O conflito principal se dá entre a última moradora do Aquarius e a construtora, mas dois outros menores também são significativos: a lembrança de uma antiga empregada doméstica que sumiu depois de roubar algumas joias, e a relação com a atual. No primeiro caso, a mulher negra demora a ter o nome lembrado e a recordação, além da boa comida, era de ter roubado a família, mas logo uma das personagens se adianta e constata: “também, com tanto tempo sendo explorada, ela precisava dar o troco”. Uma relação que a cada cena vai se relacionando mais com a trama principal, inclusive com a presença “fantasmagórica” da empregada, como uma lembrança constante que insiste em forçar esse embate com nosso consciente. Já no segundo caso, a empregada é tratada com carinho e respeito, mas ainda sob a lógica sempre presente do “patrão/empregado”, com direito a provas de alienação típicas dessa relação, como quando a empregada defende a dona do apartamento numa discussão com a construtora. Clara é explorada pela especulação imobiliária, o grande Capital, mas também reproduz a exploração e hierarquias de seu ciclo de amizades. Dois pesos, duas medidas. Uma lógica que gera desconforto de tão presente que é em nossas ações. E, como deveria ser, no fim é a primeira empregada quem dá o exemplo à Clara.

O “nada” acontece

Numa das primeiras cenas, um grupo de meia idade faz uma atividade na areia da praia de Boa Viagem, três jovens se aproximam, claramente de outra classe social, e olham a atividade. Seria hipocrisia não dizer que boa parte pensa no pior: desde uma “tiração de sarro” até algo mais grave como um assalto. Mas os meninos simplesmente deitam e começam a participar, nos deixando com um incômodo moral e a consciência pesada por ter chegado à única conclusão aparente e regada de preconceitos. Noutras cenas o mesmo se repete: uma situação é criada para um suposto desfecho inevitável e o no fim… nada acontece. Barulhos na escada, tensão no rosto da personagem, um corte para a porta e você pensando: “vão abrir”. Nada acontece. Logo no início, carros estacionados na praia. Outro veículo se aproxima e a expectativa de algum tipo de transgressão vem junto. Mais uma vez: nada. É estranho. Uma espécie de “deslocamento de expectativa”. Talvez porque nos acostumamos mal com as narrativas que nos prendem pelos efeitos e frenesi das cenas. Boas e longas histórias já não nos prendem tanto. Mas também porque é intenção do filme ser contra a padronização e o condicionamento.

A resistência

Clara dá sinais o filme todo de resistência. A partir da decisão de permanecer no prédio e impedir mais um desses condomínios de luxo, com as mesmas lógicas de funcionamento, a personagem resiste contra a padronização de gênero, é uma jornalista viúva e muito bem resolvida, da velhice, mantem uma vida ativa, sai, bebe, ouve música alta e transa. Ela não aceita ser condicionada (o tal do “deslocamento de expectativa” se justifica). Logo de início, uma cena pode parecer solta, mas se explica justamente nessa quebra dos padrões. Ainda nos anos 80 e com uma Clara jovem, ela, seu marido e filhos, prestam uma homenagem a tia que completa seus 70 anos. Enquanto isso, a tia se fixa numa cômoda na sala e na lembrança de quando fez e recebeu sexo oral ali. São duas visões opostas de um mesmo acontecimento: os 70 anos. Que surpreende e dá a toada do filme. A cômoda, inclusive, segue no mesmo lugar na casa de Clara e é frequentemente destacada.

O câncer

Clara tinha câncer de mama. Para se livrar do excesso teve que aprender a lidar com a falta: uma de suas mamas foi retirada ainda quando era jovem. E assim se acostumou: no lugar de ter um “câncer”, aqui já vale como metáfora, ela decidia passar a diante. Como faz com os cupins que são jogados nos apartamentos vizinhos ao dela pela construtora a fim de desgastar a estrutura do prédio. A cena mais emblemática. Mas como faz também com toda a padronização que ela decide se livrar.

Aquarius fala sobre nosso dever de resistir. Uma mensagem urgente em tempos de Temer.

por Pedro Veríssimo

Comments

comments

Veja Também

“13 minutos”, mostra um dos atentados contra Hitler

A Alemanha frequentemente resgata a história de Hitler e o período nazista. Talvez numa tentativa …

One comment

  1. Sabord, embrasure pour le service du canon dans un vaisseau;babord, cote gauche d’un vaisseau en partant de
    la poupe (la partie de l’arriere d’un vaisseau);tribord,
    cote droit d’un navire, a partir de la poupe;vibord, grosse planche qui
    porte le pont superieur d’un vaisseau. http://www.sophiechassat.com