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As pessoas e as pizzas

Há muitas maneiras de se fazer uma pizza com pão de forma e, entretanto, nenhuma delas, já pronta, parece-se com uma pizza de verdade.

Quando digo “de verdade”, me refiro às pizzas feitas em pizzaria, não levando em consideração se usam forno à lenha ou elétrico, apesar de ser perceptível a diferença de sabor entre cada uma destas. Isso, claro, se você não fuma em excesso e possuí as papilas gustativas bem conservadas, pois, caso contrário, há uma grande probabilidade de parecerem, os dois tipos de pizzas, a mesma merda.

Mas, no final das contas, são todas pizzas, inclusive aquelas feitas em padarias, que até entre elas diferenciam-se, mesmo tendo a maioria um ar de rejeitada. Outsider. Como se estivessem fora do seu habitat natural, lutando pela atenção do cliente junto às coxinhas e os mini pães de queijo que, apesar de ainda serem descritos como novidade se comparados com os originais, muito antigos, caíram no gosto da rapaziada e, há de se convir, parecem estar, diferente das tais pizzas, no lugar certo.

Um peixe fora do ninho. Não é assim? Até para as pizzas, que coisa, não?

Eu gosto muito das que são feitas ali na Cintra, padaria localizada relativamente perto de casa no bairro Vila Jundiaí, onde boa parte dos residentes gosta de dizer, não sei bem a razão, que mora em Braz Cubas. Sem problemas, essa imposição de nomes de bairro. Confusão besta, irrisória. Quantos Brooklyns fora de Nova York, não é verdade? Quantos lugares, ilhas, com nome de flor, onde pétala alguma parece habitar?

O importante é ter nome bonito, povo acha até chique. Igual pizza cara, de camarão. Diferente da padaria que eu gosto, que é boa e barata, apesar de ser feita sobre um chão sujo, que fez minha mãe parar de fazer compras presenciais e passar apenas a encomendar. O chão continua sujo, mas não é preciso vê-lo e isso parece bastar.

Pizzas são gostosas. Até quando ruins. Pizzas são como pessoas, feitas por elas, que também se fazem, com ou sem intenção. A gente come. A gente SE come. Se lambuza e, após a parte boa e prazerosa, fica lá, encarando, com nojo ou receio, para a coitada da borda.

“Ai, engorda!”

É, bordas são um problema, mas ainda assim, parte substancial da pizza. Não sabendo lidar ou talvez com preguiça, eu as como. Tal qual meus problemas, que vivem me comendo.

Fazer o quê?

Pizzas são como pessoas.

por Luiz Bellini

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