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Chuveiro – Parte 2 (ou Água Fria)

Para que é que se escrevem continuações de obras bem sucedidas? Para estragá-las, talvez. Bem, quem nos leu sabe que a primeira parte desta narrativa não alcançou sucesso mundial. Então, é algo que estragaremos entre nós. Aos apegados ao suspense, aviso que não sigam lendo nem mais uma linha. Sim, parem, pois vamos direto aos fatos: a cadeira tremia na mão de Carlos porque este pensava em puxá-la – como fazem os adolescentes na sala de aula – para que a mãe passasse reto, indo com o quadril ao chão. Com que intenção? Assim, poderia usar o almejado chuveiro por alguns dias com a desculpa de que ficava ali para oferecer mais cuidados. Por que então fechara seus dedos contra o batente? Pois assim não poderia abrir mais a delicada torneira de seu próprio chuveiro. E, bem, aí seria obrigado a trocá-lo ou, talvez, alguém oferecesse outra saída.

Já se ouvem as vaias: “Uuuuuuu!”, “A verdade é pequena!”, “Eu preferia o suspense!”, “Não entendi que era pra parar!” Sim, sim, sim, os escuto. Mas sejamos francos, na imagem turva que eu lhes havia deixado supunha-se muita vileza. Admita, pensaste coisas piores. E eu, distraído, ofereci a vileza pela vileza: e só. Ah, não! Quão pequeno pude ser? Perdoem-me, mas sou contra os que se fazem de taciturnos e enigmáticos sem conter enigma nenhum. Sugerir o mal vazio não é filosofar. Se vamos de vileza, que seja a vileza humana e quente. Não a racional e fria. Humanidade, amigos. Humanidade!

“Se já falou tudo de cara, pra que todas essas linhas aqui embaixo?” poderia perguntar qualquer um. Sou obrigado a responder como Machado quando se apoiava em Shakespeare. Há entre o céu e a terra muito mais do que sonha nossa vã suposição. Digo, nosso objetivo é dar um ou dois passos a mais em direção à verdade para vê-la abrir-se. Como? Da mesma maneira que a distância se vê uma árvore como figura única, aproximando-se um pouco se notam alguns galhos, mais um pouco e vêm-se infinitas folhas.

Mas, seremos breves. Desta vez a promessa não falha. Vamos rebobinando. Dos últimos aos primeiros acontecimentos.

Antes que Carlos fechasse a porta, fechou os olhos. Os fechou porque avistara o chuveiro da mãe. Era novo. Novinho em folha. Ela trocara. Foi o que o impeliu para o ‘sim’. De cabeça quente, é certo. Segundos antes, considerava se esta ideia de quebrar os dedos era mesmo a menos danosa. Como não seria? Todo santo dia pensava em resolver o problema e acabava postergando qualquer ação real. Dia após dia, assim, por semanas, meses, talvez anos. Que mal era ter os dedos quebrados por um tempo se comparasse isso a mais uma década de banhos horríveis e procrastinação? Sim, era isso o que acabaria acontecendo se não agisse agora. Sem poder usar a torneira, finalmente resolveria algo – Convencia-se -. E de quebra, ao menos por alguns dias, provaria este chuveiro divino da casa da mãe. Como vimos, acabou fazendo a si mesmo o favor.

Voltando mais um pouco nos vemos com Carlos e suas mãos tremendo na cadeira. Porque tremia tanto? Sim, seu chuveiro era algo que tiraria um tipo comum do sério. Mas, entre tirar do sério e levar a cogitar a ideia de machucar a própria mãe há – ou deveria haver – um longo caminho. Aqui, um mea culpa. Havia mais do que vocês sabiam. Marieta é que havia persuadido Carlos a alugar aquele apartamento próximo ao seu. Especificamente aquele. O fizera para ter seu caçula por perto. Ele ouvira a mãe. Sempre o fizera. E deixara-se convencer. Mas, na mesma medida em que havia sido levado no papo, havia cobrado. Brigaram algumas vezes. Foram ríspidos. Deixaram escapar até palavrões que em toda a vida não haviam visto o ar entre os dois. Ele a culpava por havê-lo convencido a ficar por ali. Não que considerasse a mãe como a grande responsável, mas esperava ao menos que admitisse haver ajudado na escolha. Qualquer palavra de redenção. Qualquer pouquinho de culpa. Impossível. Como já dissemos, apesar de carente e sensível, era orgulhosa demais. Dessas pessoas que preferem ver a vida ruir a desculparem-se. O leitor deve se perguntar como nada disso havia se feito visível naquela tarde. Como pude deixar passar? A poeira já havia baixado é o que podemos dizer. Além disso, há sempre quem se trate de um jeito ou de outro a escolher pelo dia.

Tenta-se aqui sugerir que tudo isso desculpe a ideia de Carlos e suas mãos tremendo? Não. Não cabe a nós. Não somos advogados do diabo, apenas testemunhas da verdade. Se quiserem encarcerá-lo pelo que pensou – ainda que vocês hajam pensado pior – sigam em frente.

Mas, como vamos de tribunal, vale à pena um último relato. Lembram-se que não havia ninguém quando Marieta acidentou-se na escada e começou nossa história? Pois bem, esclareceremos como tudo se passou. Vinha há dias sendo atormentada pela ideia – mal de família – de que caso se machucasse, teria alguma atenção. Naquela tarde, ao chegar à portaria e notar que o elevador não funcionava, viu a oportunidade. Escadas de serviço, local público e sem câmeras. E então, cedeu? Na verdade, nunca. Mas distraiu-se tanto com a ansiedade que acabou mesmo por acidentar-se. Sim, tudo se dera como se o destino abraçasse o acaso.

Se ainda perguntam-se por que, mais tarde, a mesma Marieta dizia ao filho que não ficasse mais do que um dia em casa. Não é mistério. As coisas não são pretas nem brancas. Sentia-se tão culpada quanto se realmente fosse. Talvez seja o caso de atenuar as penas.

por Gabriel Stroka Ceballos

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