Home / Contos / Chuveiro

Chuveiro

Trinta e poucos. Não sabemos ao certo quantos anos ele tinha. Mas era algo por aí.  Sua rotina: acordar, esfregar os olhos, pegar o celular, abrir o Instagram, levantar, espremer o tubo de pasta de dentes até que ele ceda, escová-los mijando sentado, ir à cozinha fazer café preto, tomar o café encarando o chuveiro.

Paro por aqui.

Porque é neste ponto que de fato começa nossa breve história. O que é que o homem – vamos chamá-lo de Carlos – pensava enquanto olhava o chuveiro? É difícil descrever ao certo, pois há tanto tempo reservava este momento de seu dia para passar da mesma forma, que, em suas cogitações já não poderíamos alcançá-lo. Seja como for, o que podemos, pelo menos, é descrever o chuveiro e seu funcionamento. Isto, com certeza, não será inútil.

Era antigo, mas não tanto. Talvez tivesse quinze anos. Carlos não saberia dizer, vivia ali há menos. Branco e de plástico. Tinha manchas marrons formadas por uma espécie de lodo sebento que nosso personagem não ousava tocar. Alguém que subisse na privada ao lado veria na parte superior um emaranhado de fios coloridos e remendados cobertos por uma espessa camada de poeira úmida. A capa protetora, que deveria estar ali, talvez nunca tenha saído da embalagem. Era elétrico. Oferecia duas opções de temperatura. Na verdade, três. Verão, Inverno e Off (também não sabemos dizer por quê o fabricante não optou pela grafia apenas em Português ou apenas em Inglês). Mas, no momento em que nossa história se passa, tais temperaturas existiam só na teoria. Logo falaremos disso. O que mais? Bem, sim, a torneira. De metal, antiga e enferrujada. Quem produz e vende uma torneira de ferro oxidante? Infelizmente também não sabemos responder. É certo apenas que, se for a mais barata do mercado, não terá problemas em sair das prateleiras. Quão enferrujada? No dia em que narramos, algo entre setenta e oitenta por cento de sua superfície já havia se tornado laranja e porosa. Carlos, por haver acompanhado diariamente a evolução da corrosão, se manteve hábil o suficiente para posicionar os dedos de sua mão direita em pontos estratégicos. Assim, não apenas evitava tocar as partes que se esfacelariam na pele, mas também abria e fechava a água com grande rapidez, o que ajudava a baixar o número de choques que tomava para quase zero. Sim, havia os choques. Mas, isso e tudo o que descrevemos até agora seria relevado por Carlos se o funcionamento de nosso coadjuvante fosse minimamente satisfatório. Quão ruim poderia ser? Não pior do que viver debaixo da ponte, é claro. Mas nosso personagem principal não sabia nada sobre pobreza. Conhecia apenas a dificuldade de ver-se obrigado a cortar luxos e privar-se de conforto ao morar sozinho pela primeira vez. Ou seja, não era rico, mas não lhe faltava para casa e comida. É importante dizer, entretanto, que já fora abastado. Não milionário, nem a ponto de sentir-se privilegiado. Ilustraremos apenas dizendo que, na casa em que cresceu, sempre havia sobremesa e ninguém passava o aniversário sem ganhar presentes.  Pertencia a uma dessas famílias que a cada cinco anos, ou algo assim, conseguem fazer uma pequena reforma.

O funcionamento – como dizíamos – não era nulo, mas precário. De mais ou menos cinquenta ou sessenta orifícios por onde a água deveria cair algo como a metade estava entupida. A sujeira que parava o fluxo era preta e viscosa, parecida com a das manchas marrons. Carlos às vezes se perguntava como tal barreira se formava em furos minúsculos onde havia tanto movimento. Dos vinte cinco ou trinta orifícios restantes, uns dez apontavam e atiravam água para os mais diversos lugares que não o chão. Alguns em direção à parede, outros à janela e, um deles, à cortina do box, onde rebatia e atingia o teto começando a formar uma colônia de mofo. Pelas nossas contas, restam mais dez ou quinze jatos. E estes, como funcionavam? Não surpreenderá o leitor que nossa resposta mais uma vez não é “Perfeitamente”. Três ou quatro deles caiam com pressão total, outros três ou quatro apenas caiam e os últimos três ou quatro gotejavam. Os jatos com boa pressão saiam aquecidos até demais. Se a temperatura escolhida era “Verão” vinham pelando, se era “Inverno” ferviam ainda mais, tornando-se insuportáveis; os de pressão média ora esquentavam, ora esfriavam; e aqueles que gotejavam estavam sempre gelados.

Para não tomarmos tanto do valioso tempo de leitor, deixaremos nossa descrição por aqui. Esperamos que haja sido possível imaginar a experiência de tal banho. E sendo a resposta ‘sim’, já é possível entender, ao menos superficialmente, porque é que Carlos encarava o chuveiro antes de, de fato, encará-lo. Mas um rato pensa na fome ou na comida?

Como já dissemos, Carlos tinha família. Porém, aquele lar outrora tradicional havia se dissolvido e adquirira um novo enquadramento: uma mãe querida em um apartamento em um bairro vizinho, um pai amigável estabelecido com uma nova família e uma irmã exemplar fazendo trabalho voluntário em comunidades suburbanas. Eram eles próximos? Não. Eram distantes? Tampouco. Amavam-se com ressentimentos brandos e saudades adiáveis.

Nos dias em que narramos, a mãe de Carlos recém havia saído do hospital. Recuperava-se de uma lesão no quadril. Esta mulher, chamada Marieta, tinha sessenta e cinco anos. – Não falaremos mais do que o estritamente necessário sobre ela, pois, repetimos: reconhecemos a pressa do leitor. Há que checar o Instagram. – Pois bem. Era sensível, carente, autoritária e orgulhosa. Tudo sem que uma característica contradissesse a outra. A lesão se dera por um escorregão nas escadas de serviço. Ninguém estava presente, mas Marieta conseguira terminar de subir até seu apartamento e interfonar para o porteiro pedindo ajuda. Depois de tratada, a indicação dos médicos era que tivesse algum tipo de auxílio para locomover-se nos primeiros dias em casa. Viera o filho.

– Oi, mãe. Cheguei.

– Entra! Já vou. E fecha a porta pra sua mãe, filho.

Carlos já havia fechado. Sabia que ouviria isso, pois escutara a vida inteira o horror da mãe pelas “correntes de vento” que se formam pela casa e deixam a gente doente.

Marieta apareceu no corredor esforçando-se para mover a cadeira de rodas.

– Não precisava vir até aqui. Eu não sabia que você tava assim, mãe.

– Assim, como? Nesse troço?

– É, mãe. Achei que tinha sido mais tranquilo.

– Como é que você ia saber se não apareceu no hospital?

– Você falou pra ninguém ir, mãe.

– Tá bom. Agora preciso tomar um banho que ainda tô com cheiro de hospital. Coloca suas coisas no seu quarto e me leva até o banheiro.

Falava já de costas, enquanto o filho obedecia aos comandos empurrando a cadeira.

– Pô! Você fez a cama, mãe? Não disseram pra você não fazer esforço? Não é por isso que eu tô aqui?

– Tá bom, tá bom, filho. Gostou ou não gostou?

– Gostei mãe. Obrigado.

– Ah, e tem bolinho de chuva no microondas também. Mas é só pra você ficar um dia, hein. Não quero virar encosto. – Dizia isso ao entrarem no corredor do banheiro. Quando pararam, completou – Você vai ficar sentado do lado de fora. Se eu precisar de alguma coisa eu te chamo.

– Mas, mãe…

– Sem mas. Onde já se viu, me dar banho? Eu hein. Eu consigo ficar de pé. Não virei uma aleijada não, viu?

– Tá bom.

Abriu porta, empurrou a cadeira com a mãe para dentro, acendeu a luz, pegou a toalha pendurada e a colocou na pia.

– Obrigada querido. – Disse levantando-se com dificuldade. – Agora põem esse trambolho no corredor – Referia-se à cadeira. –, porque aqui dentro só vai me atrapalhar. Aproveita pra ler um livro. Faz tanto tempo que você não lê nada.

– Tá bom, mãe. Brigado. Vou ficar no celular mesmo. Tô aqui na porta. Qualquer coisa chama, hein? Sério.

– Tá bom, tá bom.

Carlos fechou a porta.

Assim como tantas coisas apenas esbarram na literatura por não poderem de fato ser explicadas, o que descreveremos a seguir conseguirá apenas insinuar o que se passou enquanto nosso protagonista esperava do lado de fora do banheiro. O que nos dificulta a tarefa é que nem mesmo ele pôde entender muito bem. Ficara atordoado, como se verá.

O apartamento era antigo. E tudo nele também. Contamos isso, pois é necessário mencionar que no passado a porta do banheiro havia sido trocada. Ignoramos o motivo. Mas, estando à época sem dinheiro, os moradores a substituíram por uma menor, tirada da passagem entre a cozinha e a área de serviço. Como lá não fez falta, a gambiarra logo se tornou permanente. Assim, agora, enquanto Carlos pegava o celular nos bolsos, já sentado na cadeira da mãe, dois feixes de luz amarela vindos das frestas que a porta suplente deixava, tanto por cima quanto por baixo, cortavam o ambiente e lhe serviam como iluminação. A decisão de não ir até o interruptor inicialmente se deu por preguiça, mas, logo, se manteve porque Carlos notou que esta meia luz amarronzada lhe passava um não sei quê de sensação nova. Algo que vira nos filmes, talvez. Distraído com isso, foi pego de surpresa por um estrondo caudaloso, a ponto de descolar as costas da parede e voltar-se pra porta. O susto e incompreensão rapidamente cessaram ao entender que aquele trovão era apenas o barulho de um chuveiro que funcionava. E, assim como estes raios que quebram o céu e dão início à chuva, depois dele o som rico permaneceu constante.

Aproveitando o ânimo do baque, Carlos pensou em finalmente ir ao interruptor. Mas, ao ver-se de pé, apenas tirou a cadeira da parede em que estava e a colocou na oposta. Agora, de frente para a porta, podia admirar melhor os feixes que cortavam a sombra. Pôs-se a ouvir a torrente e não pôde evitar imaginar a água caindo abundante. No meio da paisagem, notou que se inclinava demais, apoiando todo seu peso em uma das rodas e quase indo ao chão. “Dá pra se machucar com isso aqui”, pensou. O pensamento se agarrou em outro, que por sua vez escalou e assaltou Carlos com uma imagem. Era uma imagem clara e horrível.  Ele repeliu a ideia com apreensão.

Antes que pudesse seguir repudiando o raciocínio, foi distraído novamente.  Desta vez por uma nuvem de vapor que saia da fresta superior. Aí, então, deixou-se levar. Não foi mais interrompido por qualquer coisa que o constrangesse. Não porque em sua mente não se engendrasse nada que o envergonharia, mas sim porque isso acontecia em segundo ou até terceiro plano. Enfim, se passava em algum lugar profundo enquanto nosso protagonista se perdia na delícia das sensações simples. Além do som abundante que o embalava e da visão de fumaça que o deixava entre uma sauna mediterrânea e o conforto do céu, havia também a pureza que o vapor dava ao ar. Este lambia a pele de Carlos e umidificava suas narinas e seus pulmões, fazendo o homem sentir-se quase como um bebê que descobre o cheiro do planeta por primeira vez; ainda que não pensasse com estas exatas palavras.  Por tudo isso, não houve qualquer ideia que conseguisse fazer-se notar o suficiente. Ao longo dez minutos, quinze, meia hora – Não sabemos quanto – tudo o que fosse discurso, pensamento ou tivesse forma, permanecera embaixo de uma terra onde Carlos corria distraído. Ainda que fosse mais preciso dizer que nosso amigo sentia aquilo que provavelmente sente uma folha destacada de um galho seco ao descer balançando lentamente pelo ar.

A água parou. O som e tudo também. Carlos voltou a si de forma brusca, mas confusa. Naturalmente, a ideia que trabalhava aos fundos aproveitou a brecha. Saltou tentando ganhar atenção. Carlos rebateu a sugestão com argumentos rápidos e logo se pôs a raciocinar – quase que em voz alta – sobre outras coisas. Mas ela veio novamente. Não é novidade que uma ideia cresce na mesma velocidade em que tentamos evitá-la. Era como planta nascendo no concreto, mas no meio de um barraco pobre. A nuvem nas frestas da porta começava a se dissipar. Carlos precisava decidir-se. Outra ideia lhe veio. Interrompeu a primeira. Mas era ruim também. Talvez um pouco menos. Tentou recusá-la. Crescia igualmente. Ganhou força. Haviam-lhe tomado toda a atenção. Estavam as duas claras e prontas. Duas saídas de emergência para lugares tão detestáveis quanto a emergência em si. Faltava pouco tempo. A porta do box rangeu. Precisava decidir-se.

– Tá aí, filho?

– Oi, mãe. Tô sim.

A porta se abriu. Uma nova nuvem de vapor invadiu o corredor. Era agora. A mãe apareceu enrolada na toalha. Caminhou com dificuldade para fora e voltou-se de costas para a cadeira. Ia sentar-se. Notava-se frágil. Carlos, agora, se esforçava ao máximo para afastar os pensamentos. Esmagava as manoplas com as mãos suando. Ela vinha. Começou a dobrar os joelhos. Descia sem tocar nos apoios de braço: a chance se estendia até o último segundo. A cadeira tremia. Finalmente, Marieta deixou-se cair. Estava sentada.

Aliviado, Carlos suava. Leve.

Começou a manobrar a cadeira em direção ao quarto da mãe, mas foi interrompido pela frase que sempre fora interrompido. E que sabia que seria novamente desta vez. A frase inevitável:

– Fecha a porta pra sua mãe, filho.

Carlos não respondeu. Se a primeira ideia acabara de passar por um triz, a segunda é que agora o confrontava. Já não tinha medo, mas buscava alguma força que o impelisse para o sim ou para o não. Estendeu o corpo para dentro e apagou o interruptor. Lembrou-se mais uma vez das manhãs e dos longos minutos com a caneca de café em mãos. Apoiou-se com a direita no batente, alcançou a maçaneta com a esquerda. Fechou os olhos e puxou a porta.

Ouviu-se um estalo surdo. Os dedos que sabiam abrir a torneira estavam amassados. Carlos gemeu, mas não tão alto.

Por Gabriel Stroka Ceballos

Comments

comments

Veja Também

As pessoas e as pizzas

Há muitas maneiras de se fazer uma pizza com pão de forma e, entretanto, nenhuma …