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Dois palcos e um monólogo público

Dois palcos. Três momentos. Dois se alternam. Num deles um narrador meio acanhado fala de verdades duras e doloridas. Noutro, um frenético contador de histórias divide a fala acelerada com gestos exagerados regados a luzes e trechos musicais. O “Monólogo Público” de Michel Melamed é um convite à reflexão, que vem em forma de autoanálise na última parte da peça. Um narcisismo não velado do ator que tenta descaradamente valorizar o espectador massageando o próprio ego quando evidencia a genialidade de todo enredo. Tudo muito bem pensado e parte do espetáculo.

Num palco uma verdade para si, noutro a verdade para fora, que poderia ser dita ou escrita nos 140 caracteres ou acompanhada de uma bela foto à instagram. A disputa hoje, diz no ato final, não é pela narrativa, mas pela linguagem. “O que se diz” já não vale tanto quanto o “como se diz”. Tudo é estético. Tudo é arte. E por isso, não há mais público, só palco.

“Há verdades que são tão grandes que não conseguimos tirá-las do lugar”, diz numa das cenas. O limite entre público e privado não é uma delas. Na tal “hipermodernidade”, seja lá o que você ou eu entendemos por isso, tudo se perde rápido demais.

“Cadê aquela barra que mostra o andamento do vídeo? Preciso saber se falta muito para a peça acabar”. “E se eu pegar o celular agora, será que incomoda?”. Está cada vez mais difícil encontrar dispostos a assistir numa “plateia não plateia” repleta de artistas de si, que se exibem ao máximo para seus “públicos não públicos”.

Michel Melamed, para o público, traz questões que incomodam e inquietam. Para os demais “artistas do não público” pode ser que ele, não as questões, incomode. “A final de contas, disseram que a peça só tinha uma hora…”

O “Monólogo Público” ainda está em cartaz no auditório do Masp. Última semana. Daqui vai para o Rio de Janeiro.

por Pedro Veríssimo

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