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Estética do software no documentário político

Ao transpor a polifonia dos atos pró-impeachment de 2016, Trilogia Incompleta problematiza produção de subjetividades políticas em rede

A mobilização de usuários do Facebook e do Twitter, os dois sites de redes sociais mais acessados do Brasil, pode ser considerada uma das principais forças por trás das manifestações que levaram mais de 1,5 milhão de brasileiros às ruas em todo o país durante o mês de junho de 2013. Na internet, tanto usuários experientes quanto iniciantes se tornaram organizadores, comentaristas e protagonistas dos protestos. O Twitter é apontado como uma das principais fontes de informação em tempo real sobre o que acontecia durante as manifestações. O Facebook, por outro lado, foi mais usado para organizar atos de protesto e demonstrar posicionamentos políticos.

As Jornadas de Junho, como ficou conhecido o levante popular de 2013, marcaram as redes sociais como canais de expressão de frustrações políticas reprimidas e de um desejo de participação na esfera pública que o sistema político tornou-se incapaz de canalizar. O tempo passou e as pautas das reivindicações dos atos de 2013 acabaram se transformando e dando corpo a discursos anti-corrupção, anti-petista e pró-impeachment que levaram ao afastamento da presidenta Dilma Rousseff em 2016.

Trilogia Incompleta (2016), curta-documentário realizado pelo coletivo Quarta Pessoa do Singular, de Felipe Neves, Juliana Garzillo e Lucas Lespier, captura o papel que as redes sociais tiveram na articulação dos protestos de rua e na disseminação de discursos políticos durante as três principais manifestações pró-impeachment da presidenta Dilma Rousseff, realizadas, em 2016, na Av. Paulista, em 13 de março, 17 de abril, dia da votação do impeachment na Câmara, e 31 de agosto, decisão do impeachment no Senado.

A realização do documentário Trilogia Incompleta se apoia no dispositivo de montagem de vídeos de manifestantes transmitidos pelo Periscope, aplicativo do Twitter que permite transmissões ao vivo de gravações pelo microblog em celulares e tablets. Como o Periscope utiliza o sistema social do Twitter, além de compartilhar imagens em tempo real, os usuários podem dar likes, usar emoticons e comentar os registros audiovisuais ao vivo. Isso permitiu que os manifestantes transmitissem vídeos em tempo real pelos dispositivos móveis e tivessem interações de seus seguidores enquanto participavam dos atos pró-impeachment. A opção de se apropriar dos vídeos feitos via smartphone pelos manifestantes também vincula esse documentário ao gênero found footage, que se refere a produções audiovisuais realizadas com gravações encontradas. Com esse dispositivo de organização fílmica, Trilogia Incompleta capta a contaminação entre o espaço virtual das redes sociais e o físico, das ruas, traduzindo as interpenetrações entre a experiência privada e pública dos usuários das redes sociais.

Se o documentário found footage opta por dar voz aos sujeitos sociais e valorizar seus lugares de fala, é na montagem que vai se revelar a poética, e subjetividade, dos realizadores. Trilogia Incompleta apresenta três vídeos feitos por smartphones em posição vertical no quadro horizontal do documentário por meio do procedimento de split screen (tela dividida). Desta forma, vemos três transmissões simultaneamente. Essa montagem em sobreposição reforça as próprias características do Periscope, e das redes sociais em última análise, que permite que as imagens e vozes desses manifestantes sejam sobrepostas por textos e emoticons provenientes de comentários de usuários visualizadores, promovendo uma experiência compartilhada em que os textos geram comentários em vídeo e o vídeo gera interações em texto. Os ruídos da imagem decorrentes do sinal precário da internet móvel também foram incorporados à poética do documentário, ampliando a sensação de multiplicidade e polifonia.

A autoria da produção também se revela na escolha do título Trilogia Incompleta, em que o coletivo ironiza o fato de que a terceira manifestação pró-impeachment teve um número ínfimo de pessoas, ocupando menos de uma quadra da Av. Paulista, e não foi encontrada nenhuma transmissão via Periscope.

A experiência estética de Trilogia Incompleta traduz a multiplicidade de vozes, imagens e o caos informacional que envolveu os brasileiros no processo do golpe sofrido pela presidenta Dilma Rousseff, que completou um ano em 17 de abril. Ao contaminar-se pelos efeitos do software nos modos de pensar e sentir contemporâneos, o documentário se faz político, pois traz a dinâmica movediça e complexa da disputa pela produção de subjetividades em rede, um grande desafio para os projetos de esquerda hoje.

por Cyntia Gomes Calhado, doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professora dos cursos de Rádio e TV e Produção Audiovisual do FIAM-FAAM Centro Universitário.

 

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