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Golias sem Davi: sobre o depoimento de Lula a Moro

Ontem o ex-presidente Lula prestou depoimento ao ex-juiz Sergio Moro em Curitiba. Utilizo o prefixo latino ex em ambos os casos por considerar que igualmente os dois não exercem mais as funções que ainda os qualificam. No caso de Lula, devido a sua incontestável vitalidade, não cabe tratá-lo de presidente como se faz com os que já faleceram. E no caso de Sergio, sua opção por agir como promotor, impede que seja capaz de julgar, como se espera de quem é juiz.

O clima instaurado no país foi o do festival de Parintins, em que os bois Garantido e Caprichoso se enfrentam ferozmente em uma batalha definitiva que arrasta inconciliáveis os seguidores de um e os do outro. A grande imprensa, mestre de cerimônia do grande coliseu, estampou em suas portadas ringues de box, ou panfletos no estilo do velho oeste americano em que Billy the Kid e Pat Garrett se avistarão ao por do sol no parque Passaúna.

Partidos políticos, Centrais Sindicais e movimento social reuniram seus exércitos e montam campana em apoio a Lula. Do outro lado, o próprio Sergio foi às redes sociais para tentar conter as milícias raivosas que o comandam.

Diz na bíblia que houve um momento da luta entre o povo eleito e os filisteus, em que coube ao pequeno e hebreu Davi enfrentar o gigante Golias do time dos filisteus. Para abater o bruto, o menino franzino do rei Saul tinha apenas algumas pedras e uma funda. A tal da funda é um espécie de estilingue sem forquilha e sem elástico. Davi foi hábil e teve bastante sorte. Acertou uma boa pedrada na cabeça do Golias e acabou virando herói bíblico.

Essa parábola costuma ser evocada sempre que se trata de uma luta entre um grande vilão e um pequeno “do bem”. Faço uso dela para tratar do dia de ontem também.

Antes de tudo, cabe um pouco de revisionismo histórico quanto aos filisteus. Eis um povo sobre o qual temos apenas a versão do vencedor. Sabemos que foram a pedra na sandália dos guerreiros de Israel. Que eram cruéis, que subornaram Dalila contra Sansão e que roubaram e sumiram com a arca sagrada dos hebreus, que o Indiana Jones encontrou depois. Sabemos também que apreciavam uma espécie de estrogonofe arcaico que inspirou, por negação, a culinária kosher. Sobre tudo isso existe bastante convicção e pouquíssima prova arqueológica. Não se trata aqui de defender os filisteus, mas apenas de dar-lhes o benefício da dúvida diante da precariedade dos autos.

Além das delações sagradas, não há nada que comprove a real vilania de Golias. Nada que justifique sequer ter havido processo contra Davi pelo homicídio qualificado do gigante. Deu-se tudo como se o próprio deus único dos hebreus estivesse julgando, sem recurso de defesa, aos bárbaros filisteus.

Voltando ao caso de Curitiba e pensando em estaturas, Lula é, para a história do povo brasileiro, maior do que Golias. Do seu jeito sindicalista beberrão, levou ao limite as possibilidades de negociação entre o capital e o trabalho no país. Realizou, durante o seu governo, a proeza de promover os miseráveis sem que os poderosos tivessem muito do que se queixar. Habilidade pessoal e/ou janela de oportunidade do capitalismo internacional na forma de commodities, foi assim que se deu. Houve avanços significativos no processo de inclusão e surgiram novos paradigmas nacionais. O povão ampliou seu pasto, mas para isso, o próprio Lula deixou pelos na cerca. O Brasil ganhou impressionante protagonismo na geopolítica mundial e isso não escapa impune.

O processo foi interrompido a golpes no governo Dilma, antes que se consolidasse e antes que a crise econômica cobrasse sua fatura dos dois lados. O capital abriu uma cloaca política e endossou um indigente sem caráter para o comando do país. O governo emporcalhado brinca sorridente com as próprias fezes e as atira na cara dos trabalhadores e dos mais pobres.

Lula é o líder absoluto nas intenções de voto para as eleições 2018. Eleições que tem maior probabilidade de ocorrerem, quanto maiores forem as chances do gigante ser abatido por uma pedra. Não se fez o que foi feito com as instituições do país para devolvê-lo em seguida às mãos do mesmo vilão.

É pouco provável que Lula tenha realizado toda sua saga até aqui sem cometer nenhum ilícito. Seja um sítio emprestado, uma quase compra de apartamento facilitada, ou qualquer outro deslize que seria tolerado pela justiça da elite para a elite. Sabemos todos que a aplicação rigorosa da lei é um trunfo que só se usa contra os inimigos. Os coroinhas da Lava Jato não estão a serviço da justiça que interessa ao povo brasileiro.

O ex juiz Sérgio, nesse contexto, pode ter a mesma estatura pequena de Davi. Pode até se envaidecer, como faz, por representar a esperança do povo eleito contra os filisteus. Vai seguir obstinadamente procurando uma pedra e talvez encontre, mas não tem nem de perto a coragem de Davi que enfrentou Golias de peito aberto. Esconde-se, sitia, embosca, constrange, avilta, manipula, conspira, insufla… tudo isso em nome da lei.

Ao que se assistiu ontem, portanto, foi a uma luta em que de um lado está Golias e do outro a funda cruel da elite soberba. Não há Davi.

por Newton Molon

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One comment

  1. Na veia. Como venho dizendo há muito tempo: moro não é juiz, não é herói, Estou chamando atualmente de juizeco, mas nem isso mais ele é. Fraco, voz de imberbe. Quer ganhar o jogo e como não sabe jogar, retira a bola, dá caneladas e canetadas. Davi, jamais.