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Invisíveis

Voltando do trabalho peço um táxi. Os minutos de silêncio são quebrados pelo motorista, que diz:

  • Aqui tá ficando melhor, né?
  • O que?
  • Essa região. Agora não tem tanto mendigo.
  • Hm.
  • Porque assim moça, isso aqui ó, ficava cheio de mendigo. Sabe? Era feio de doer, agora tá mais limpo. Passo aqui de dia e de noite e agora tá bem melhor.
  • Limpo? Não entendi.
  • É, né. Tiraram os viciados daqui.
  • Mas assim, será que você não tá vendo um problema social como poluição visual?
  • Não.
  • Não?
  • Não. Até porque viciado não é problema meu.

Invisível é o problema social ainda sendo tratado como poluição visual.

*

Na roda do bar, os amigos reunidos curtem a nova descoberta hype da Santa Cecília. Todos pós-graduados, “desconstruidões”, conhecedores das últimas modas e 100% trendsetters. Entre uma piada e outra, um gole de cerveja. Entre um gole e outro, gargalhadas altas e comentários que vão denunciando a ausência do bom senso.

Um transeunte se aproxima da mesa. Roupas rasgadas, corpo sujo, cheiro forte. O homem balbucia um pedido inaudível. Faz gestos, luta para manter o equilíbrio, e ignorado, sai em silêncio até a próxima mesa.

Depois dele, mais outros.

Um novo grupo passa, todos juntos e igualmente desnorteados.

As piadas começam.

Zumbis.

Episódio de The Walking Dead.

A Noite dos Mortos Vivos.

Os jovens gargalham entre si.

Satirizam.

Ridicularizam.

Os jovens “estudados” desumanizam – literalmente – quem ainda é vivo.

Invisível é a naturalização da desumanização.

*

Pela manhã, duas amigas conversam no ônibus:

  • Você viu?
  • O que?
  • O Andreas, irmão da Suzane Richthofen foi achado na Cracolândia.
  • Eita. É mesmo?
  • É sim, que dó. Já sofreu tanto, né? Não precisava passar por isso. Mataram o pai, a mãe, coitado. Ele ficou sem nada.
  • Ah, igual tantos outros da cracolândia, né?
  • Não, é diferente.
  • Diferente como?
  • Diferente, ué. A irmã que matou os pais, foi barbárie, crime mesmo. O menino ficou traumatizado e se jogou nas drogas de tanta tristeza.
  • Não me parece diferente. Muitas das histórias da cracolândia não são tão diferentes.
  • Claro que são. Na cracolândia só tem viciado.
  • E o Andreas era o que?
  • Ah, não vem com essa. É diferente.
  • Diferente como?
  • É uma questão de escolha.
  • Mas se é uma questão de escolha, qual a diferença entre os viciados que escolheram isso e o Andreas que também escolheu isso?
  • História de vida, ué. É diferente.
  • Você acha que o Andreas sofreu mais do que o resto? Ou que o Andreas teve menos escolha do que os outros?
  • Não.
  • Então o que?
  • Ah, não sei. Só sei que dele eu tenho dó.
  • Mas e dos outros?
  • Mas que outros?

Invisíveis são ainda os sintomas de comoção seletiva.

por Lilian Oliveira

Fotos do Instagram @ursomorto

Bom dia São Paulo 🇧🇷

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Bom dia! ✨

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