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Mandatos em andamento e redes sociais

Estamos mesmo acompanhando em tempo real os nossos governantes?

Melhor admitir já no primeiro parágrafo deste texto: eu não assisto ao horário político. Quando ainda tinha TV aberta em casa, vez ou outra acompanhava um ou outro discurso high speed feito pelos candidatos, mas a verdade nua e crua é que eu não tenho e nunca tive esse hábito. Nada no formato tradicional do horário reservado me convence ou acrescenta.

Quando converso com as pessoas sobre isso, percebo que sou parte de uma maioria. Acompanha-se debates políticos, comenta-se uma ou outra coisa sobre um pronunciamento nacional, mas as negativas ao horário reservado a todos os partidos prevalecem.

Por essa percepção geral, é natural que a propaganda política encontre outros meios de existir e se “popularizar”. Em 2008, Barack Obama fez bonito aproveitando todo o potencial do Twitter. Sua campanha online basicamente redefiniu caminhos de atingir eleitores, trabalhar a opinião pública, organizar voluntários, arrecadar dinheiro e de lidar com ataques políticos dos adversários.

De lá pra cá muita água já rolou. O Twitter perdeu forças e o Facebook ascendeu como a rede social que te conecta com pessoas e com o mundo inteiro de todas as maneiras possíveis. As redes sociais se tornaram um dos grandes meios de se chegar até a grande massa, e ainda que seu poder seja menor do que o da televisão, ninguém se atreve a dizer até quando.

Isso nos leva às eleições americanas de 2016. O mundo chocado acompanhou a virada de Donald Trump e sua chegada ao poder que fortaleceu a onda conservadora. Depois de sua vitória, inúmeros artigos chegaram à superfície atribuindo sua vitória a uma empresa contratada pelo empresário: a Cambridge Analityca, que também atuou na campanha pelo Brexit.

A “empresa de pesquisa” fundada por Alexander Nix, usou uma metodologia que basicamente mistura os princípios da Psicometria combinados ao poder (assustador) do Big Data. Explico: a Psicometria é um ramo da psicologia que tem como foco medir os traços psicológicos de cada indivíduo, tal qual sua personalidade, por exemplo. Já o termo Big Data, refere-se a um grande conjunto de dados armazenados.

“Big Data significa, em essência, que tudo o que fazemos, seja on ou offline, deixa traços digitais.

Cada compra que fazemos com nossos cartões, cada busca que fazemos no Google, cada movimento que fazemos com nosso celular no bolso, cada “like” é armazenado. Especialmente cada “curtida”. Por muito tempo, não estava inteiramente claro o uso que se poderia fazer desses dados – com exceção, talvez, que podemos encontrar anúncios de remédios para pressão alta assim que “gugamos” a busca “reduzir pressão arterial.”*

A metodologia original pertence a Michael Kosinscki que assistiu perplexo enquanto seus estudos eram usados para converter as eleições americanas num mero jogo de marketing político. Mas de acordo com o fundador da empresa, o sucesso de seu trabalho mistura três elementos essenciais: ciência comportamental, análise de Big Data e publicidade segmentada.  Publicidade segmentada são peças publicitárias personalizadas, alinhados o mais precisamente possível à personalidade de um consumidor individual.

Mas como funcionou essa publicidade segmentada?

Bom, aparentemente todas as inconsistências de Trump foram milimetricamente planejadas, uma vez que suas mensagens contraditórias podiam ser usadas separadamente para atingir tipos de eleitores diferentes. “Quase toda mensagem que Trump enunciou foi guiada por dados”, disse Alexander Nix. Trump agiu como um algoritmo seguindo a reação das pessoas. No terceiro debate presidencial entre ele e Hilary, por exemplo, a equipe do candidato testou 175 mil variações diferentes de anúncios publicitários para seus argumentos. As mensagens, ainda que por vezes minimamente diferentes, são capazes de ser direcionadas com a melhor das abordagens psicológicas a grupos ou indivíduos.

Ainda neste ano, tivemos a notícia de que a Cambridge Analytica passará a operar no Brasil. Com as eleições de 2018 chegando e com a polarização política em alta, o partido que chegar primeiro, talvez tenha as maiores chances no resultado final. Enquanto isso, podemos observar alguns dos possíveis candidatos trabalhando da melhor maneira possível suas redes sociais. Afinal, se elas têm o poder de mudar uma eleição, elas também têm o potencial de camuflar as realidades de um mandato e de um governante.

O prefeito João Dória, por exemplo, tem usado sua página no Facebook como um meio de se manter “mais próximo” dos paulistanos. Ele e sua equipe encontraram um jeito certeiro, por assim dizer, de mostrar serviço. Em média são dois posts por dia, sendo quase sempre vídeos. A temática não varia muito. São vídeos com a “mão na massa”, vídeos de pronunciamentos sobre suas benfeitorias, e até vídeos divulgando suas doações salariais. E tem mais: não é incomum postagens de vídeos aos finais de semana.

Entendam, não se trata de uma avaliação de boa ou má gestão do atual prefeito de São Paulo. Se trata unicamente de observar como seu marketing está alinhado com as necessidades de um povo carente por respostas da classe política. João Dória tem sido lembrado mais pelos acertos de suas publicações do que pelos erros em seu mandato. O contrário também acontece: anda-se dando importância demais às suas publicações errôneas enquanto deveríamos estar atentos com o todo.

Deixando um pouco de lado publicações questionáveis (como essa e essa aqui), ainda assim Dória tem pontuado com boa parte do Brasil pelo simples fato de se mostrar presente como poucos outros políticos fizeram. Mas toda essa belíssima comunicação levanta um ponto de atenção: com a desconfiança em alta com a imprensa de modo geral, o hábito perigoso de tomar como verdadeiro unicamente o que se vê nas redes sociais se fortalece.

Obviamente Dória (ou qualquer outro governante) não fará propaganda contra si mesmo em suas redes. Por isso, a imagem residual do prefeito em ação é de dever cumprido diariamente. Porém, lentamente Dória está “definindo” os conceitos de populismo – mesmo que por enquanto só no meio online.

As redes sociais se tornaram um novo espaço público, uma nova arena de discussão política. Na avaliação de um mandato precisamos estar de fato atentos ao todo e mais do que nunca devemos lembrar que “seguir” um candidato nas redes não significa de nenhuma maneira estar por dentro do que acontece ou legitimar sua gestão. Seguir, agora mais do que nunca, torna nossa percepção mais rica ao mesmo tempo que, se aquela se torna a única fonte de informações isso pode significar estar 100% fora de tudo o que acontece.  Afinal, com a Cambridge Analityca à solta, será que muito em breve toda democracia será ainda mais manipulada?

por Lilian Oliveira

*Bio:

http://outraspalavras.net/posts/big-data-toda-democracia-sera-manipulada/

http://www.valor.com.br/empresas/4896618/apos-trump-e-brexit-cambridge-analytica-vai-operar-no-brasil

 

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