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Manifestação, vandalismo, P2: relato de uma experiência

No ano de 2013, quando as ruas voltaram a ser palco de manifestações populares no Brasil e antes de terem se tornado a passarela do sanatório geral de verde e amarelo, tive a oportunidade de vivenciar um violento cerco da Polícia Militar de São Paulo na Praça Roosevelt. Foi uma experiência muito marcante por diversas razões, mas quero aqui destacar uma delas. Faço isso de maneira testemunhal e em tom de confissão, porque minha implicação subjetiva na questão é importante para a análise do fenômeno. Naquela manifestação absolutamente pacífica do Movimento Passe Livre em que me vi sitiado pela polícia, correndo pela praça sem conseguir respirar ou enxergar o rumo, tive o ímpeto de quebrar vidraças, virar carros e queimar ônibus. Assumo que tive, mesmo não tendo qualquer vocação para o terrorismo.

Não passei ao ato, como se diz no jargão psicanalítico, porque estava mais preocupado em achar esconderijo e salvar a pele, mas foi por pouco. E permanece absolutamente clara em minha memória aquela sensação de ódio violento e inexpressável, até então desconhecida por mim. Ódio momentâneo e nominado não seria novidade obviamente, mas aquilo foi bem maior. Era um jorro de pulsão destrutiva que não podia ser lançado contra o seu objeto inspirador. Como se as bombas e o avanço dos soldados fossem um urro de ódio bem maior, capaz de calar e apavorar o meu, o nosso. Por mais que conhecesse o endereço da minha raiva, a autopreservação aconselhava bater em retirada e bater em outra coisa.

A questão é que aquela explosão de violência não fazia sentido. Tínhamos saído da frente do Teatro Municipal e caminhado de boa pela Ipiranga. Quando fomos subir a Consolação, o choque estacionado abriu fogo e desceu. Entramos na Praça Roosevelt e outro batalhão desceu pela Augusta, fechando o outro lado da Praça, eles não queriam a dispersão. Ficamos sitiados ali.

Nessas horas, quando alguém encontra um jeito de canalizar a fúria, mandando pedra, ou tacando fogo… a adesão é fácil e o caos, tendência. Não por falta de caráter e nem por tática Black Bloc dos manifestantes, mas porque a razão obscurece e nossos limites de autocensura, delineados no coletivo, resultam borrados na hora, pelo mesmo coletivo apavorado. Gustave Le Bon, Freud e outros teóricos da Psicologia das Massas já tentaram, meio sem sucesso, explicar esse fenômeno.

Quando as massas vão para a rua, o risco de vandalismo existe mesmo, especialmente quando a insatisfação com o poder público já é grande e, sobremaneira, quando interesses poderosos são contrariados e existe repressão ao direito de livre manifestação. Também pode ocorrer, é verdade, por conta da atuação unilateral de facções radicais pré-dispostas ao quebra-quebra. Mas a lógica simples faz pensar que esse não é o expediente do movimento social organizado. No mínimo porque é evidente a antipatia e a reprovação que isso gera em setores da sociedade cuja adesão é almejada por eles. Esse risco de desordem e violência tampouco parece do interesse de manifestantes comuns que vão para a rua com seus amigos e familiares para protestar a favor de seus direitos de cidadão.

Caracterizar como criminosa a atuação do movimento social organizado, produzir aversão geral e inibir a população de sair em passeata parecem razões suficientes para que o quebra pau nas ruas não seja fortuito. A inteligência da polícia parece não estar a serviço de evitá-lo, isso seria fácil. O contrário é mais plausível.

Nas últimas manifestações, aquilo que muitos acreditavam ser teoria da conspiração do pessoal de esquerda começou a ganhar contornos mais evidentes. Surgiram diversos vídeos nas redes sociais documentando indivíduos que, após atuarem na linha de frente dos movimentos, eram protegidos e abrigados pelos batalhões da polícia em meio à conflagração.

Será possível que policiais da inteligência, ligados às Segundas Seções do Estado Maior, os chamados “PM2”, ou “P2”, estão mesmo a serviço dessa barbárie em meio ao povo aflito nas manifestações? Haverá já tamanha convicção que não necessita mais nem de muita discrição?

Se é para garantir as reformas nefastas do governo corrupto e ilegítimo a qualquer preço, o toque de recolher durante o dia é, pelo menos, um pouco mais civilizado.

Por Newton Molon

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