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Meu irmão morto e meu pai

– Meu irmão morreu, acho que morreu lá por 92, 93. Não lembro bem, às vezes me confundo. Eu lembro o que eu tava fazendo na hora, como era o dia, essas coisas. De resto, nada. O telefone tocou e o pai atendeu. Lembro disso porque eu tava na cozinha e o gancho do telefone caiu com tudo na mesa e fez um barulhão. Quando fui até a sala ver o que tinha acontecido, ele tava com uma mão na boca, o corpo tremendo todo assim ó. – ele treme as duas mãos – Fiquei perguntando o que tinha acontecido. “Pai, pai, fala, pai”. E ele, quando minha irmã chegou, falou; “mataram teu irmão”. Daquele dia em diante as coisas mudaram. Mudaram muito.

– Cê quer um cigarro? – ela pergunta.

– Não, parei de fumar, brigado. Na época eu estava terminando o colégio e já havia me acostumado a ser mais um filho do meio. Meu irmão também era, só que foi o primeiro homem. Desde moleque o bicho era foda nos esportes. Alto, forte, um baita sorrisão. Eu não. Eu era miúdo, cabelo grande, desajeitado. Mas ele, meu irmão, nunca zombou de mim. A gente brigava, lógico, isso é normal. Mas ele sempre me defendeu, dizia que tinha inveja da minha inteligência. E eu, bom, nunca disse isso a ele, mas não entendia como alguém podia ter inveja de algo que não se podia ver. Não se podia tocar. E aí, de um dia pro outro, só sobrou eu e meu pai. Minhas irmãs tinham um bom relacionamento com ele, mas cê sabe, como todo véio daquela época, ele queria um filho homem para se orgulhar, para ver outro de si, mais forte e melhor. Eu via isso tudo como baboseira e nunca me liguei. Sempre fui reservado, o mais quieto dentro de casa. Gostava dos meus amigos, da rua. E de um dia pro outro, como mágica, ele passou a me olhar diferente. Como se agora eu existisse e além do mais, precisasse prestar contas. Além de todo trauma pela morte de meu irmão, precisei me acostumar com os olhares dele na mesa da janta, no corredor de casa. Por onde quer que eu passasse, ele via logo um defeito. Era meu cabelo, minhas roupas, meu jeito de falar e minha postura de derrotado, como ele gostava de dizer. E eu não entendia, estava acostumado a ser o coadjuvante e, de repente, tinha me transformado no ator principal. Um ator ruim demais para os padrões de meu pai.

– Quer um pouco de café? – diz ela, após levar o copo até a boca.

– Não, café não me deixa dormir. E assim as coisas foram ficando cada vez piores. A mãe nunca se recuperou, ficou quieta, fumava demais. E dentro de casa era uma merda. O violão, que era a única paixão que eu e meu pai dividíamos, ficou largado no canto. A última vez que eu toquei, lá em casa, meu pai passou pela porta, ouviu a música inteira e quando eu terminei ele deu um sorriso sarcástico e disse que tocar “esse tipo de música” era perda de tempo. Que eu estava fazendo errado. Foi quando me cansei e taquei o foda-se. Pedi um cantinho qualquer na casa de um amigo em São Paulo e, de cantinho em cantinho, fui vivendo. Conheci pessoas pra caralho, o que era ótimo. A cada pessoa que eu conversava, podia esquecer um pouco de mim. Cada história que eu ouvia me fazia esquecer da minha. Lembro, também, que quase sempre chegava no assunto de meu irmão. Às vezes eu contava, às vezes, não. Algumas pessoas achavam um absurdo, uma tragédia. Outras, mais cínicas ou talvez só calejadas, não se apavoravam tanto. Contavam histórias até mais tristes. “Esse é o meu país”, pensava. Gente morre a torto e direito. Morrem sem motivo. E morrem tantas, de jeito cada vez pior, que não sei se vale a pena ficar refletindo. Mas eu não conseguia me esquecer e assim fui errando e culpando o que tinha na frente e atrás. Até que cheguei naquele limite e a família veio atrás de mim. Confesso que esperava um carinho, mas também não posso culpá-los. Quem entende o que o outro passa?

– E seu pai? – ela disse, acendendo outro cigarro.

– Ele ficou puto, acho que foi quem menos entendeu. Ou talvez o contrário, e isso o perturbou mais ainda. Em uma das vezes eles me colocaram pra dentro de casa e ficaram como vigias, para que eu não pudesse sair e, como eles diziam, “me destruir mais”. Numa tarde, depois de muito tempo, me olhei no espelho. Senti tanta raiva e desgosto que, sem pensar muito, dei um murro nele. Olha aqui. – ele aponta para a mão direita – Só ficaram estas cicatrizes. Feias, né? Depois disso eu passei um bom tempo sem me olhar em um. Toda vez que eu queria saber como estava, passava a mão nas cicatrizes. Era o que eu precisava saber de mim.

– E, bom, como cê chegou até aqui? Não quer mesmo um café?

Ele sorri e balança a cabeça negativamente.

– Tinha tempo que melhorava e eu arrumava um bico, um trampo qualquer. Numa dessas oportunidades minha irmã me encontrou e veio dizer que o pai tava morrendo. De cama já, no hospital. Fingi que não ouvi na hora e disse, por cima, que ia tentar dar um jeito. Depois, sozinho já, fiquei dizendo para mim mesmo que ele não merecia que eu fosse. Afinal, o que eu, logo eu, poderia fazer de bom. E aquilo durou alguns dias. A noite era pior. O quarto pequeno, as paredes cheias de umidade, era uma tortura. Num sábado pedi folga e decidi ir lá no hospital. Veja só, eu pus a melhor roupa que tinha. Não era boa, como cê deve imaginar, mas escolhi aquela. Durante o ônibus e o trem fiquei com uma vontade do caralho de chorar. Via aquele tantão de gente, via toda aquela paisagem que ia passando nas janelas, tanta coisa acontecendo lá fora. Cheguei no hospital e minha irmã até se assustou quando me viu. Acho que pensou que eu não ia mesmo. Depois sorriu e me abraçou, elogiou minha aparência. – ele dá uma risada – Família é foda, né? Tem que se amar. Ela me levou até ele e quando o vi, aquele baita negão forte que me criou, deitado na cama, fraco e já magro, todo o choro que eu guardei na viagem caiu ali. E ele, ao ver que era eu quem estava no quarto, chorou também. Falamos de coisas bobas, do Corinthians, de violão. Perguntou se eu tava com uma banda, se eu tinha uma namorada, essas coisas. Eu acho, pensando aqui comigo, que a gente queria ter dito outras coisas, sabe? Acho que a gente queria falar sobre como foi doída nossa relação e como, mesmo desse jeito, sempre um amou o outro. Mas não falamos e depois de quase uma hora, disse que precisava ir embora, mas que voltaria. Cheguei bem perto do véio e ele, com aqueles olhos amarelados e duros, me pediu um abraço. Meio sem jeito, me abaixei e abracei. Pensei que ele fosse me pedir desculpa ou alguma coisa do tipo, mas ele só me abraçou. Ali eu entendi que não precisava, nem eu, nem ele, pedir perdão um pro outro. Aquele abraço bastava, sabe? E quando já tava saindo pela porta ele me disse. Disse que ia levar esse abraço pra ele.

– Ele?

– É, acho que falava do meu irmão, porque ele morreu aquele dia mesmo, no final da tarde. E foi estranho quando, nos dias seguintes, eu senti uma espécie de liberdade. Sem meu irmão e agora, sem meu pai, tinha que voltar a me encontrar. Comprei um espelho novo, olha só, e passei a me olhar com mais frequência. Não sei se é vaidade, mas olhar pra ele e me ver, me ver depois de tudo que passei, me fazia querer continuar. E, bom, as coisas estão caminhando, não é? – ele sorri para ela.

– Me diga; contar isto te faz sentir melhor?

Ele abaixa a cabeça por alguns segundos e rapidamente a levanta. Passa os dedos da mão esquerda pelas cicatrizes na direita e diz:

– Eu acho que é só mais uma história, sabe? É só mais uma história qualquer, como tantas outras por aí. E acho que, por isso mesmo, eu devo contar.

por Luiz Bellini

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