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Meu lindo planinho para o futuro

Estávamos todos confortáveis na mesa, até que alguém, prefiro não lembrar, pôs-se a perguntar a todos sobre o futuro. Não aquele misterioso e místico, mas sim o mais banal, aquele que supostamente a gente constrói. Fiquei com medo. Apertei o copo americano e rezei para que algum dos envolvidos ali tivesse bom senso e mudasse de assunto. Mas nada disso aconteceu. A pergunta, que a mim já corroía antes mesmo que pudesse respondê-la, pareceu criar certa libido nos outros e assim só o que se ouvia era o futuro dos outros.

Uma a uma, as pessoas começaram a destrinchar seus trocentos planos. Projetos, objetivos e toda essa parafernália que aos meus olhos sempre apareceu embaçada. Desesperado, pus-me às pressas a elaborar qualquer um que soasse tão bonito e promissor quanto ao que ouvia. Até que, inevitavelmente, chegou a minha vez e, mesclando eloquência com um tiquinho de não-sei-bem-mas-acho-que, disse, nos limites da convicção, o que pretendia fazer no tal do meu futuro.

Todos ficaram admirados. Alguns, de antemão, já me deram parabéns. Outros tomaram um gole da cerveja e só com a cabeça consentiram. Creio que estavam com inveja. Não era para menos, eu tinha acabado de dar vida a um plano maravilhoso e contundente. “Meu lindo planinho”, apelidei mentalmente. Não era difícil ficar ludibriado com aquelas palavras, visto que acabei me seduzindo por elas também. Eram promissoras. E claro, eram mentiras também.

Dali em diante, afeito ao meu lindo planinho, passei a carrega-lo por todos os lugares e conversas. Quando faltava assunto, não pensava duas vezes, sacava-o logo e POW! Lá estava ele, elegantíssimo em cima da mesa, para todos poderem olhar e caírem em deleite. Óbvio que eu também não era burro. Com o tempo você acaba ganhando certa malícia e assim pude moldá-lo de acordo com cada ocasião.

Em alguns ambientes o apresentava menor, quase tímido, como um filhotinho fofo que cativa justamente por sua fragilidade. Já em outras ocasiões, alargava-o ao máximo e assim ele tornava-se o centro das atenções, quase um exemplo a se seguir. Meu presente tornou-se irrelevante, desnecessário. De certo modo, era até bacana me encontrar onde estava, afinal daria até mesmo mais credibilidade quando estivesse pleno e realizado na Riviera dos futuros. Jornada do herói, pensava eu, enquanto coçava o saco na cama antes de dormir.

Toda a beleza e o carisma que meu lindo planinho emanava vinha do fato dele simplesmente não existir. E assim, não tendo forma, prazo ou método, tinha tudo e um pouco mais. Até que (e sempre existe um até que) topei com um desses niilistas educados, que se abundam em cada esquina e ele, ao ver meu lindo planinho, não teve compaixão ou decência e o arremessou na parede com inúmeras perguntas indevidas (porém polidas).

Questionado, vi o quebrar em pedacinhos tão minúsculos que fui incapaz de recolhê-los no chão.

E assim, sem meu lindo planinho para o futuro, fiquei pelado. E  minha nudez, indecentemente honesta, chocou os olhos dos outros.

por Luiz Bellini

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