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Múltiplas escolhas

Estava com fome, o que era estranho. Afinal, semanas antes havia tido uma conversa muito franca comigo mesmo e havia chegado num comum acordo que não teria mais tesão com comida. Sem tesão, sem vontade, foi o que pensei. Mas, veja só, de uma forma ou de outra, geralmente à noite, após lutar durante todo o dia contra a vontade, a fome aparecia, porém, desacompanhada do tesão, o que já era um grande passo. Ao invés de sonhar com delícias a preços exorbitantes, me satisfazia com qualquer pão de forma e mussarela seca. Comia por comer, simples.

Mas naquele dia, em especial, estava com muita fome e tanto na geladeira quanto no armário não havia nada capaz de saciá-la sem representar um considerável risco à minha saúde. Ou gastrite, melhor dizendo. Permaneci com a porta da geladeira aberta por alguns segundos a fim de encontrar uma solução que não se encontrava ali. Contrariando o acordo, resolvi que merecia sim, comer alguma coisa gostosa, só por hoje. Pensei em sair, mas não saio. Então fui para o celular e num desses aplicativos de refeição a verdadeira jornada começou.

Múltiplas escolhas, amigos, foi o que vi. Dispostas num template moderníssimo e cheio de cores, várias fotos suculentas brotaram diante de mim na pequena tela e mais do que ansioso, me vi perdido. O que diabos pedir?, pensei comigo. Primeiro vi os nomes, depois os preços e, sem perceber, estava imerso nas avaliações dadas pelas pessoas ao lugar. Meu dedo corria pela tela touch screen em pleno estado de fascínio. Entretanto, quando tentei unir as três premissas básicas, produto, preço e avaliação, o verdadeiro tormento se deu.

O que parecia gostoso e tinha ótima avaliação, era caro. Se era barato e gostoso, diziam que demorava demais a entregar. Um consumidor, não me lembro o nome, estava deveras irritado com a não semelhança da foto ilustrativa do lanche no aplicativo com o produto que havia recebido em casa. Disse até que comeu, meio relutante e putíssimo, e o sabor não estava lá tão ruim, mas definitivamente não se parecia com a foto.

Quando me dei conta, haviam passado bons minutos e ainda não tinha decidido nada. Acendi um cigarro, impaciente. A fome só aumentava e junto dela agora estava a agonia diante da não resolução pra uma coisa tão simples. Acontece que de simples ali não havia nada. Não hoje.

Diante de tantas possibilidades, a escolha tornou-se uma espécie de exercício doloroso. Não porque estava indeciso entre uma dúzia de coxinhas de uma rede de fast-food com um dono ganancioso ou um lanche com hambúrguer bovino 150 gramas suculento, mas sim porque esperava encontrar uma espécie de união incabível. Como se fosse possível unir todos os fatores positivos e atraentes de um bom prato em um só. Bem dizendo, eu queria o melhor. E que ele fosse barato, claro. E se possível, não sei se é pedir muito, chegasse rápido também.

Não é preciso nem dizer que isso não existe e se existe, não tive a sorte de encontrar. Alguns vão falar (até porque alguns sempre falam, mesmo quando não são questionados) que isso é lá um déficit de minha personalidade. Coisa do signo, ascendente, karma. E eu direi beleza, tudo bem, talvez você não seja acometido por um problema tão minúsculo e insignificante quanto uma escolha de lanche numa noite qualquer, entretanto, antes fosse só os lanches. Nesse cardápio universal que se transfigura frente aos nossos olhos, não são somente as coisas materiais que se norteiam por comparações.

Foram tantos anos a devaneio, crendo estar ok, inalando esse perfume de fragrância atraente e ótima fixação chamado capitalismo, que não é de se espantar que essa busca incessante pelo supra sumo chegasse as relações sócio afetivas. A gente vai avaliando e descartando as pessoas, seguindo parâmetros rigidamente pouco confiáveis. Esquivando do defeito do amigo, como se, juntando-se uma grana, você pudesse comprar um bem melhor ali na Cidade Jardim. A prazo se for caro demais. Se aquela peida dormindo, troca. Se aquele gosta de Jota Quest, pó trocar também.

E a dança se instaura num balancear frenético, com um pulando para um lado e pro outro, lendo Baumann um pouquinho, não muito, é verdade, só pra passar a língua bem de leve na ferida e se auto anestesiar com uma espécie de consciência de curta duração.

E não pensem que falo aqui pra vocês que sou a favor de todo mundo comer só batatas. Não tenho resolução nenhuma sobre esse suposto problema (suposto, pois pra muita gente é solução). Tenho, pra ser honesto, somente esse relato. Porém, não se preocupe, existem muitos outros por aí. É só escolher.

por Luiz Bellini

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