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A necessidade de se discutir uma esquerda por vir

Vivemos em um tempo de concorrência generalizada e de uma esquerda míope quando se trata de apresentar alternativas a essa norma, ou, para citar Dardot e Laval (2016) que sofre de uma “pane de imaginação”. O capitalismo contemporâneo conta com um conjunto de normas e técnicas disciplinares que conduzem nossas relações de emprego, com o outro e com nós mesmos. O modelo hoje é o da “empresa de si”. Richard Sennett (1999) em “A corrosão do caráter”, fala da passagem da burocracia e rotina do trabalho centrado na empresa para um capitalismo de natureza mais flexível, de narrativas de incertezas. Mudança que incidem diretamente em nosso caráter:

o valor ético que atribuímos aos nossos próprios desejos e às nossas relações com os outros, ou se preferirmos, os traços pessoais a que damos valor em nós mesmos, e pelos quais buscamos que os outros nos valorizem (p. 10).

No neoliberalismo, o principal desafio é a construção de uma narrativa de vida, já que não há mais algo externo – a vida construída a partir dos longos períodos em uma mesma empresa – para se apoiar. Surge daí a incorporação individual da “auto-ajuda empreendedora”. Independente da mudança de cenário (emprego), o sujeito está centrado em si mesmo sob a lógica empreendedora.

A saída possível para essa pane de imaginação da esquerda, então, deve ser pensada com base nas experiências e lutas do presente, uma alternativa que não se contenta simplesmente com a crítica incisiva à “mercantilização generalizada”, mas que busca uma saída “‘à altura’ do que o regime normativo dominante tem de inédito” (DARDOT, 2016, p.389).

Hoje, segundo Žižek e para agravar ainda mais este cenário, há um espaço público esquerdista-liberal cada vez mais dominado pelas regras da

“cultura de twitter”: saturado de sacadas curtas, réplicas pontuais, comentários sarcásticos ou indignados, mas com cada vez menos espaço para as etapas múltiplas de uma linha de argumentação mais substancial.

A pergunta a se fazer, então, é se a esquerda pode opor uma governamentalidade alternativa á governamentalidade neoliberal. Segundo Foucault, precisamos inventá-la.

A questão não é como impor ao capital um retorno ao compromisso anterior ao neoliberalismo, mas como sair da racionalidade neoliberal (…) a questão é, primeiro e acima de tudo, como preparar o caminho para essa saída, isto é, como resistir aqui e agora à racionalidade dominante. O único caminho praticável é promover desde já formas de subjetivação alternativas ao modelo da empresa de si (DARDOT; LAVAL, 2016, p.396)

A saída dessa racionalidade dominante é mais complexa do que a troca de governos – muito embora em alguns casos existam governos que, em suas políticas, contrariam tal racionalidade. Mas como também lembrou Žižek, é preciso não ter medo de levantar a questão sobre se a vitória eleitoral ainda é o momento decisivo de uma mudança social radical, sobretudo em um momento de descrença dos processos eleitorais.

Tão importante quanto encarar essa questão é se desfazer da “ilusão de que o sujeito alternativo poderia ser encontrado de uma forma ou de outra como ‘já aí’”, ou seja, como “uma localização ontológica do sujeito da emancipação humana” (DARDOT; LAVAL, 2016, p.397), uma visão que o marxismo levou a cabo durante décadas e ainda hoje encontra ecos em alguns partidos de esquerda que insistem em tratar os trabalhadores de hoje como aqueles de Putilov. Para fugir dessa lógica de constituição do sujeito ontológico, Dardot e Laval (2016) defendem que devemos conceber um sujeito “sempre por construir” e articular, assim, “a subjetivação à resistência ao poder” (p.399).

E se o sujeito é sempre por vir, o discurso destinado a ele deve responder as demandas do momento. Quando trata da vitória de Corbyn, Žižek ressalta a importância daquilo que ele chamou, emprestado de Hegel, de “franqueza ingênua”, talvez a mais “devastadora e sagaz de todas as estratégias”.

com uma franca ingenuidade, ele [Corbyn] simplesmente abordou as principais questões e preocupações das pessoas comuns, de problemas econômicos a ameaças terroristas, propondo contramedidas claras. Não havia raiva nem ressentimento em suas declarações, tampouco evocação barata de ânimos populistas, mas também nada do farisaísmo “dono da verdade” politicamente correto. Ele apenas focou em responder às reais preocupações das pessoas comuns com simples decência.

E se no campo discursivo a saída pode se dar sob esse método, no campo relacional talvez a saída mais eficaz seja a contraconduta.

O conceito vem de Foucault e significa “tanto escapar da conduta dos outros como definir para si mesmo a maneira de se conduzir com relação aos outros”, de maneira prática, trata-se de uma “recusa de se conduzir em relação a si mesmo como uma empresa de si e a recusa de se conduzir em relação aos outros de acordo com a norma da concorrência” (DARDOT; LAVAL, 2016, p.400). Uma conduta baseada no princípio do comum:

a recusa de funcionar como uma empresa de si (…) na prática só pode valer se forem estabelecidas, com relação aos outros, relações de cooperação, compartilhamento e comunhão. De fato, que sentido teria um distanciamento de si mesmo que não tivesse nenhuma ligação com a prática cooperativa? (…) A invenção de novas formas de vida somente pode ser uma invenção coletiva, devida à multiplicação e à intensificação das contracondutas de cooperação. A recusa coletiva de ‘trabalhar mais’, ainda que seja apenas local, constitui um bom exemplo de atitude que pode abrir o caminho para essas contracondutas: ela rompe o que o saudoso André Gorz denominava com muita justiça de ‘cumplicidade estrutural’ que une o trabalhador ao capital, na medida em que ‘ganhar dinheiro’, cada vez mais dinheiro, é o objetivo determinante de ambos. Ela abre uma primeira brecha na ‘coerção imanente do sempre mais, sempre mais rápido’ DARDOT; LAVAL, 2016.

Cabe a nós permitir outro “sentido do possível”, não alinhado a ideia de maximização do desempenho, da produção e do controle, diferente da concorrência generalizada. “As práticas de ‘comunização’ do saber, de assistência mútua, de trabalho cooperativo podem indicar os traços de outra razão do mundo”, a Razão do Comum (Idem, p.402).

por Pedro Veríssimo

Pierre Dardot e Christian Laval

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo. Ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

SENNETT, Richard. A corrosão do caráter. Consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Editora Record, 1999.

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