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O carma da tonfa

Nunca antes havia sido tão feliz quando, naquela manhã, pôs a mão pela primeira vez na lustrosa tonfa que a partir dali iria acompanhá-lo em seu turno. Faltaram-lhe palavras, a boca secou. O brilho que ia se movimentando por aquele pedaço de polímero na cor preta manuseado com tamanho carinho, de uma forma que jamais outra pessoa, por ele, teve o prazer de ser. Mil imagens iam sobrepujando uma a outra em sua cabecinha. Queria gritar. Gritar bem alto. Chacoalhar, fazer movimentos bruscos e caretas de Bruce Lee. Mas a sala estava cheia. Cada companheiro segurava o seu bastão e, assim, achou melhor preservar em silêncio seu êxtase. Por respeito ao momento de seus colegas, nada mais.

Confessou mais tarde, já maleável e perdido na escolha das palavras, enquanto tomava um café bem forte e doce junto de um amigo, que nunca pensou que fosse bater tão forte. Sabia que um dia precisaria usar – era o seu trabalho – mas não tão forte, juro, não assim. O amigo disse algo ameno, deixa pra lá, continua. E ele continuou. Contou, com detalhes não requeridos, todos os trejeitos e formas que usava para manusear sua pequena amiga. Havia dias de tranquilidade, quando o clima e o som pareciam unir-se de forma agradável e a mão, habituada a tensão, repousava com carinho sobre a tonfa. Não que significasse desatenção, não pense isso, cara, jamais. Era só descanso, respiro necessário. Nada que pudesse abalar aquele par de olhos que, mesmo em aparente distância, percorriam cada centímetro de seu alcance em alerta de um possível distúrbio.

Havia outros dias, também. Dias que as buzinas pareciam furiosas. Que as conversas pareciam amplificadas e todo e qualquer assunto ou expressão corporal exalava estresse. Nesses dias não havia respiro, ar qualquer que pudesse acalmar. Nesses dias as veias dilatavam-se e, a olho nu, pareciam crescer sem freio numa beleza violenta, enquanto a mão apertava o cabo, também de polímero, de sua tonfa. Era só pra assustar, demonstrar respeito, valores que se perderam e viraram temas de conversas perdidas. Não queria puxar e bater, mas teve. Ele pediu. Sempre pedem, você sabe.

Desse jeito, com o hábito de perder a calma, as piadas tolas dentro do carro deram lugar às cobertas de sadismo. As brincadeiras sobre o time do outro sumiram, só havia mesmo a desconfiança e a eterna busca do respeito. A cada cidadão folgado, respeito. A cada viatura branca, preta e vermelha que passava perto com expressão de zombaria, só um pouco de respeito. E quanto mais precisava falar sobre o respeito, mais ele parecia fugir. Obrigado a possuí-lo, mesmo sem saber de fato o que dele faria, restava ir buscar com sua tonfa na mão em riste e, assim, ele, o respeito, meio na marra, vinha pianinho.

Por fim, a pedido da família, voltou a frequentar a missa.  Entretanto, tinha dó do padre. Não raiva, dó mesmo. Dó de ver aquele sujeito que se sujeitava a mentir para tantos que de bom grado o ouviam. Dizendo que a melhor forma de encontrar a paz e a felicidade era promovendo o respeito com base no diálogo. E ele ria, ria por dentro. Tinha dó, dó daquele mentiroso, que nunca havia sido obrigado a agir contra um pichador, um mal criado, um boca suja incapaz de ouvir sequer uma ordem. Saiu da igreja naquele domingo e bebeu. Bebeu e contou a todos sobre a presepada daquele mentiroso de batina. Porém, tão pouco alguém, além de sua mulher, o ouviu. Falava sozinho no quintal. Parecia chorar um pouco, também.

E hoje, aqui, falando com o amigo entre um copo e outro de café, o arrependimento que ousa emergir à superfície volta a afundar com sentenças de ódio e de dever cumprido. Um cão fiel, disposto a dilacerar outro de sua espécie para assim receber a aprovação do dono invisível. Um servo obstinado, munido de uma farda e uma tonfa, correndo atrás de cães menores enquanto, sem perceber, foge de outros maiores que si.

Me vê um pedaço de bolo e só mais um pouquinho de café, por favor. Preciso voltar, a mulher tá me esperando, ele diz, enquanto serve-se a si mesmo com o bolo e o café, sozinho, no quintal de sua casa. Parece chorar um pouco, novamente.

por Luiz Bellini

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