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O ineficiente João Dória

Eficiência, segundo o dicionário Aurélio, é aquilo “que tem capacidade de ser efetivo; que dá bom resultado”. Essa é talvez a palavra do momento, sobretudo num tempo como o nosso de concorrência generalizada, seja entre empresas, seja entre nós mesmos. João Dória, por seu histórico de empresário, usou e abusou dela. Disse que enxugaria a máquina pública implementando uma gestão eficiente. Portanto, se assim ele quis, que avaliemos seus primeiros meses sob a ótica da eficiência.

João Dória é uma farsa que muito bem representa a “nova cara da política”, ou, pelo menos, a cara de “nova” que querem dar a já conhecida política. Mas com um diferencial: Dória usa e abusa das novas tecnologias de comunicação, e faz bem do ponto de vista técnico. Mas ele deveria saber que tal esforço, sem apresentar bons e reais resultados, tem prazo de validade.

Como já disse em outros textos: “saudade não é programa de governo”, mas em São Paulo ela poderá ter valia mais rápido do que a gente esperava. Dória mete os pés pelas mãos, se atrapalha e dá margem para contradições que já pipocam por aí. Aqui nos prenderemos a quatro situações que provam sua ineficiência enquanto gestor: a ação higienista na Cracolândia, a Virada Cultural, o aumento na velocidade das marginais, e sua incestuosa relação com o poder privado.

A ação na Cracolândia foi um desastre por vários motivos. Primeiro porque sob a desculpa de prender traficantes, prefeitura e governo estadual usaram e abusaram da repressão. Inclusive, foi por isso que a secretária municipal de Direitos Humanos de São Paulo, Patrícia Bezerra, pediu as contas. Bombas de gás, balas de borracha e centenas de policiais deram o tom da ação. Pelo menos 80 pessoas foram presas, entre elas 69 usuários, “o que evidencia o propósito higienista da ação”, de acordo com o Conselho Regional de Psicologia, que também frisou que o uso de álcool e drogas é uma questão de saúde pública e não de polícia: “trata-se de um ataque à dignidade humana e à população. O interesse público é ignorado e violentado”. Como se não bastasse, Dória anunciou o fim do programa “De Braços Abertos”, que ressocializa e recupera dependentes químicos oferecendo trabalho, comida e moradia. Programa, inclusive, premiado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA).

Até aí poderia ser um assunto resolvido no jargão simplista e conservador do “tá com dó leva pra casa”. Essas preocupações são majoritariamente daqueles que estudam e se dedicam ao tema. Para a população, num primeiro momento, eu reconheço que poderia soar como uma ação de combate ao tráfico e recuperação da segurança. O que quero dizer é que o senso comum poderia apoiar a ação não fosse um detalhe: depois de feita, São Paulo ganhou pelo menos mais 23 pontos de concentração de usuários, que vão do Minhocão à Av. Paulista, com destaque a uma praça a pouco mais de 400 metros da antiga Cracolândia. Uma ação mal pensada e de consequências trágicas.

A segunda situação: Dória acabou com a Virada Cultural e mostrou mais uma vez sua ineficiência quando o assunto é política pública. Desde 2005, quando seu partidário José Serra começou com a iniciativa, esse foi sem dúvida o pior ano. Um evento que articula cultura e espaço público e se consagrou como o maior festival de cultura do mundo foi esvaziado por conta de uma visão deturpada da cidade – ou de quem só a conhece através do vidro do carro. Segundo o urbanista e ex-secretário de Cultura na gestão de Fernando Haddad, Nabil Bonduki, “desconhecendo a dinâmica urbana e cultural de São Paulo, Dória quis confinar o evento ao autódromo de Interlagos, revelando uma visão segregadora que se opõe ao conceito de ocupação do espaço público ancorado na criação, na convivência e na cidadania cultural”. Não bastando, o prefeito ainda tentou uma censura “velada” aos artistas quando pediu para não tratarem sobre política nos shows. E fato curioso: a programação de Interlagos aconteceu simultaneamente a uma corrida automobilística.

Muito embora a descentralização da Virada já vinha acontecendo, os grandes shows continuavam no centro da cidade, mantendo uma das marcas da ação: a circulação de pessoas de toda a cidade pela diversidade cultural num único espaço.  Esse ano os grandes shows aconteceram na Chácara do Jockey (zona oeste), no Sambódromo do Anhembi (zona norte), no Parque do Carmo (zona leste), no Autódromo de Interlagos e na Praça do Campo Limpo (ambos na zona sul). Treze milhões foram gastos sem o impacto desejado na população. Para um empresário de berço, uma relação custo/benefício um tanto onerosa aos cofres públicos (“vamos enxugar a máquina pública”, ele dizia).

Acelera São Paulo!”. Dória acelerou e os acidentes nas marginais aumentaram. Não há o que contestar, é um fato e a população sabe. Alguns não se importam, é verdade. Não sendo com eles, tudo bem. Mas Dória decidiu ir à contramão das grandes cidades e em alta velocidade. A redução implementada por Fernando Haddad possibilitou, em pouco tempo, melhorias na mobilidade, na qualidade de vida, e na saúde pública. Só para se ter uma ideia, em dezembro de 2016, a Marginal Tietê completou 19 meses sem nenhuma morte por atropelamento. Depois do aumento da velocidade, segundo dados publicados pela Folha de S. Paulo, o número de acidentes nas marginais cresceu 51%, com destaque para os atropelamentos, que cresceram 300%. Além disso, os acidentes com caminhões cresceram 108%, com motos 60% e com carros 10%. Foram cinco acidentes com vítimas fatais. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a cada 5% de aumento na velocidade média ampliam-se em 10% os acidentes com lesões e de 20% a 30% as colisões fatais. Mais uma vez, Dória dá exemplo de má gestão.

Por fim, há que se falar da relação público/privada em sua gestão. Segundo Sérgio Praça, professor pós-doutor da FGV, pesquisador do Cepesp e , pelo que leio de seus textos, liberal – uma das variações simplistas para “direita” – “a maior inovação de Dória é sua relação com empresários”, que ele se gaba por conta dos “favores” que recebe em troca. O problema é que “Dória está ferindo a lei. Pior do que isso: está dificultando a vida dos responsáveis por fiscalizá-lo”. O texto de Sérgio Praça está AQUI.

Lá pelas tantas, Dória viajou aos Emirados Árabes para falar das oportunidades de se investir em São Paulo (foi tentar vender a cidade). Foi em viagem paga pelos empresários de lá. Acontece que ele é um só, não dá para ser prefeito e empresário ao mesmo tempo. Ele é, e quis ser, prefeito. Se assim não se comportar, quem perde é a cidade. Recentemente o dono da Ultrafarma “doou” R$600 mil para a Prefeitura comprar remédios. Não demorou muito e Dória estava gravando um vídeo fazendo propaganda de vitaminas comercializadas pela empresa. Fica ainda mais grave quando sabemos que a Ultrafarma quer construir um novo empreendimento na cidade, que precisa do aval da prefeitura.

Com isso o prefeito de São Paulo finge não existir a Lei 8.666/1993, a Lei de Licitações, que estabelece as regras na relação entre setor privado e setor público. Uma delas é a impessoalidade. “Mas ele conseguiu de graça, isso não é bom?” Não. Empresa não é filantropia. Todo “favor” tem um preço. “Leis existem para isso: desincentivar que políticos e burocratas façam ações políticas com base em relações pessoais. Leis não impedem atos ilícitos, mas os definem”, ressalta Praça.

Como a cereja do bolo, João Dória desarticulou a Controladoria-Geral do Município (CGM), criada por Fernando Haddad. Foi através dela que a prefeitura criou o Sispatri, uma ferramenta eletrônica que analisa os bens dos servidores municipais e detecta quem teve aumento de patrimônio desproporcional ao salário recebido, o que permitiu desmontar a “Máfia do ISS”, por exemplo. Além disso, São Paulo passou a publicar no Portal da Transparência a íntegra de todos os contratos firmados pela administração direta e indireta com fornecedores e parceiros. Dória esvaziar a CGM é muito grave.

E já que falamos de Haddad, é preciso reconhecer que ele tocou em pontos nevrálgicos da cidade como a mobilidade e o direito ao espaço público. O que ele fez, em última instância, foi pensar a cidade para além da lógica eleitoral, contrariando algumas “verdades” da grande metrópole brasileira, fazendo escolhas caras para quem depende de votos e pensando em longo prazo. Ele nos forçou a pensar a cidade, a mobilidade e a lógica do espaço público. Dória, com seu discurso outsider da política e com base em estratégias de marketing, desmonta políticas públicas essenciais na mesma velocidade que contraria seu discurso de eficiência. João Dória, o prefeito-empresário, é ineficiente, vaidoso e mau gestor.

por Pedro Veríssimo

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