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O motorista e a síndrome do dono da rua

Eu sempre fui pedestre. Dos meus primeiros passos até hoje, me considero uma pedestre convicta. Aos 18 anos cheguei a rejeitar um carro que me seria dado como presente já ciente  de que não conseguiria manter seus custos com o salário de estagiária.

Essa recusa me trouxe muitos aprendizados, afinal, ser pedestre e heavy user de todos os tipos de transporte público me trouxe também visões diferentes da cidade – e das pessoas.

Para cada tipo de transporte, um tipo de comportamento. Para cada limitação desse mesmo transporte, um tipo hostilidade coletiva. Mas de todos os transportes, nenhum me causa mais estranhamento do que o automóvel. Mesmo com todas as limitações do transporte público e as reações extremas que estas podem causar às pessoas, para mim, nada se compara à animosidade dos motoristas no trânsito. É algo que me assusta, me revolta e me atinge diretamente.

Semana passada, especialmente, voltei a me chocar quando me deparei com esse vídeo rolando na minha timeline do Facebook:

Que também me fez lembrar deste outro caso de 2011 em Porto Alegre:

Ambos os agressores alegaram estar agindo “em legítima defesa”. No primeiro caso, o governo Doria veio a público citando desobediência e multou os skatistas após o atropelamento (!). Dias depois, o motorista que se entregou à polícia, foi autuado e responderá por lesão corporal em liberdade. O agressor do segundo vídeo foi condenado a 12 anos de prisão somente em 2016, cinco anos depois do ocorrido.

São casos como esses – e situações que presencio todos os dias – que me fazem perguntar: o que há de errado com os motoristas?

Da maneira como o carro é visto pela sociedade até a maneira que ele influencia no comportamento do condutor, tudo para mim é curioso e portanto, questionável. Segundo Dittmar, o uso do  automóvel pode ser observado em três aspectos diferentes: instrumental, afetivo e simbólico.

O instrumental se refere à sua utilidade, no caso, o deslocamento entre espaços físicos. O afetivo se resume às sensações emocionais e também físicas despertadas pelo uso do automóvel. Já o simbólico – e o mais complexo ao meu ver – está relacionado a posse e ao uso do objeto como classificadores sociais, como um símbolo definidor de status. Queiroz vai além:

Se, de um lado, propicia a intensa mobilidade espacial das pessoas, de outro expressa a condição de classe e o desejo de ascender socialmente. Não se configura apenas como uma máquina, mas como um totem impregnado de significados, um espelho da vida social e para o homem. (Queiroz, 2006, p.120)

Sinto que a simbologia do carro na sociedade brasileira é um tanto quanto explícita. Não à toa, geralmente os primeiros esforços financeiros da vida adulta são direcionados a aquisição de um carro. O automóvel vira objeto de conquista, e à ele também atribui-se o papel facilitador de outras conquistas desejadas, como o respeito, a admiração, a inveja, e até as relações sexuais. O motorista, através do veículo, externa personalidade, se afirma nos objetos e por meio das coisas que possui (Damatta et al., 2010).

Fabio Frencl, motorista, ciclista e pedestre se reveza entre os três papéis pela cidade. Sua impressão como motorista é clara: “O trânsito é uma criação do homem, criada pelo desejo de se locomover mais do que a própria natureza permite. E isso faz com que nossa própria natureza seja meio esquisita. Quando criança, sempre tive muito desejo de dirigir, sempre achei que seria legal ter aquele lance de carro, e poder ser um “motorista”…Quando finalmente me tornei um motorista, percebi que na verdade, nós em uma auto escola, só aprendemos a operar uma máquina de 1,5 tonelada, sem aprender sobre educação e o lado humano no trânsito. A grande população habilitada que roda pelas ruas e estradas no nosso país sabem apenas operar uma máquina, sem enxergar o ecossistema humano em que todos estamos incluídos.”

A simbologia do automóvel apesar de profunda, está clara para a maioria – mesmo que inconscientemente. Mas por meio dela, como podemos explicar as reações extremas dos condutores no trânsito do dia a dia?

Um outro estudo feito por Queiroz responde parte dessa questão relatando que os motoristas encontram-se em um espaço ambíguo, uma vez que o público e o privado se misturam. Público porque estão numa via da cidade que, embora seja objeto de investimentos maiores destinado ao uso dos carros, ainda assim pertencem à sociedade como um todo; e privado porque se enxergam e se comportam dentro de seus automóveis como uma extensão de seus corpos e de suas próprias “casas”. Ou seja: o carro acaba por se tornar uma bolha particular imaginária.

As reações extremas acontecem geralmente quando os motoristas sentem que o seu espaço privado dentro desta bolha imaginária está sendo invadido ou desrespeitado de alguma maneira. Junta-se à esse sentimento a falsa noção criada ao longo do tempo de que as ruas foram construídas ao uso exclusivo dos carros que sempre angariaram os maiores investimentos de políticas públicas voltadas à mobilidade.

“O legado da era do planejamento dominado pelo automóvel ainda é claramente visível em cidades do mundo todo. Esse legado pode ser notado em bairros sem calçada, espaços públicos tornados redundantes pelos carros estacionados e nas vias urbanas que segregam bairros para servir ao espraiamento dos subúrbios” – Cities alive: Towards a walking world – Relatório feito pela Arup, empresa de engenharia, design e planejamento urbano.

Não podemos negar que, as reações extremas se potencializam quando somadas ao fator de estresse no trânsito. Mesmo levando a maior parte de investimentos, seguramente podemos afirmar que nem motoristas, nem pedestres, nem ciclistas ou qualquer outro cidadão sente que nosso trânsito é bem resolvido o suficiente para atender a demanda de todos esses carros na cidade. A falta de infraestrutura e de planejamento é notável e maximiza todas as frustrações.

Gráfico: Nexo Journal*

Somados todos esses elementos, passando pela simbologia do automóvel, pelos grandes e ineficientes investimentos de mobilidade sem uma infraestrutura eficiente, por toda a falta de treinamento e educação no trânsito, temos um massivo aumento de acidentes e vítimas fatais.

Os acidentes no trânsito são a terceira maior causa de morte no mundo, perdendo apenas para doenças cardíacas e câncer. Não surpreendentemente, as maiores vítimas do trânsito em São Paulo são justamente os pedestres. “Morrendo tanto pedestre desse jeito, a gente mostra exatamente como está a cidade de São Paulo em algo que é básico de qualquer país civilizado, que é o respeito ao cidadão que está sem carro, afirmou Alexandre Rocha Almeida de Morais, promotor de Justiça e coordenador do Centro de Apoio Criminal do Ministério Público de São Paulo.

Diante de tantas constatações e notícias ruins, uma impressão com viés positivo é que faz um certo tempo que cidade vem se questionando sobre os problemas de mobilidade que tanto afetam seus cidadãos. Poucas iniciativas foram implementadas até o momento – e poucas delas foram bem aceitas pelos motoristas, como as ciclovias, as faixas exclusivas para ônibus e a redução de velocidade em vias expressas.

O que de certo deve ser trabalhado em paralelo à iniciativas governamentais sobre mobilidade e trânsito é o esforço individual e coletivo de consciência. Por mais ingênuo e óbvio que isso soe, todos deveriam entrar na jogada. O governo, além de trabalhar para montar um sistema de trânsito com uma infraestrutura eficiente, também deveria atuar cada vez mais em campanhas que abordem o assunto.

Um reforço das montadoras seria ideal para construir uma “cultura da empatia no trânsito”. Fazendo uso de suas publicidades milionárias, elas podem continuar vendendo seus automóveis e ainda assim trabalhar o lado humano do trânsito. E se você acha que isso é impensável, dá uma olhada no que a Volvo anda fazendo lá fora:

*Este vídeo mostra um spray reflexivo de luz projetado pelo fabricante de automóveis sueco Volvo para aumentar a visibilidade dos ciclistas nas ruas da cidade após o anoitecer.

O caminho é longo e a discussão necessária. A simbologia do automóvel é tão arraigada que demorará anos para que seja desconstruída. Por isso, existe a necessidade da conscientização do tamanho da responsabilidade de acordo com o porte do meio de transporte que se conduz. Motoristas, motociclistas, ciclistas, enfim, todos devem cuidar para estar atentos aos mais vulneráveis nas ruas. Afinal, devemos sempre lembrar que antes de condutores somos todos primordialmente pedestres.

por Lilian Oliveira

PARA LER, VER E REFLETIR:

– Documentário: “Bike VS Cars” – Disponível no Netflix.

“Cities Alive: Towards a walking world” Relatório feito pela Arup, empresa de engenharia, design e planejamento urbano. Disponível para download (apenas em inglês): https://goo.gl/BkQR8h

BIBLIOGRAFIA:

“Ter um carro é…. A percepção sobre o significado do carro e o comportamento do condutor” – Fabricio Maoski. Curitiba, 2014.

https://goo.gl/Y66ynC

Artigo: “O Automóvel como Símbolo da Sociedade Contemporânea”. –  Tatiana de Freitas Luchesi.

https://goo.gl/dwrxhD

Gráfico de Distribuição das Mortes Por Idade e Mobilidade no Brasil – Nexo Jornal – https://goo.gl/XpPfRn 

Matéria: “Esqueça o carro. A cidade caminhável é a bola da vez” por Juliana Domingos de Lima –  Nexo Jornal, 2016.

https://goo.gl/CPznL9

 

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