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O quadro

Ela ficou parada, em pé, com os dois braços soltos, olhando diretamente para o quadro de tamanho médio pregado na parede. Tinha as bordas douradas, o quadro. Ele ficou se esparramando por uma das camas e vagou por cada detalhe do quarto sem prestar devida atenção por nenhum deles. Depois usou os braços como travesseiro, enquanto tirava um dos tênis com o outro pé. Ela continuava parada, próxima a ele, entre as duas camas, na frente de sua própria mala, olhando para o quadro mediano pregado na parede. Ele, percebendo a interação impassível entre os dois, a moça e o quadro, começou a produzir pequenos barulhos com o corpo a fim de quebrar a monotonia dilacerante da qual não fazia parte e chamar a atenção para si. Primeiro puxou forte o ar com o nariz, aproveitando uma falha antiga e barulhenta na narina esquerda, mas nada. Depois suspirou com a boca. Nenhum efeito. Por fim soltou um “ai” bocejado, mas nada, nada mesmo parecia quebrar o magnetismo entre a admiradora e aquele pequeno pedaço de arte de tamanho entre o pequeno e o grande com bordas pintadas de amarelo ouro. Sem mais recursos sonoros primais ao seu dispor, perguntou:

– O que é que cê tá vendo?

Ela suspirou e pareceu pensar por alguns segundos, coisa que não é clara, visto que estava de costas pra ele, logo, não poderia ele ter certeza se ela, de fato, pareceu pensar. Mas ela virou lentamente o rosto para o seu lado esquerdo e respondeu:

– O quê?
– O que você tanto olha aí? – perguntou novamente.

O rosto retornou à posição inicial e voltou a se ater somente ao quadro de tamanho aparentemente médio e bordas de amarelo metálico.

– Ah, o quadro. – ela respondeu, bem calma.
– E o que tem de especial nele?
– No quadro?
– É, poxa, no quadro.
– Não sei explicar. Acho que o mesmo que você vê. Acho.

Ele coçou a barba de um mês que parecia de três dias e puxou fundo o ar atrás de combustível para novas perguntas.

– Eu não vejo porra nenhuma nele.
– Nada? – ela pergunta, sem torcer a cabeça.
– Porra, lógico que vejo. Têm coisas nele, isso eu sei. Mas não me diz nada.
– Engraçado.
– Por quê engraçado?
– Porque eu vejo.
– Mas vê o que, diacho?
– Já disse, porra. Não sei explicar.

Ao ouvir isso, ele virou para o lado, agora usando somente uma das mãos como travesseiro e fingiu-se satisfeito com a resposta dela. Ela não, continuou ali, como que fincada no piso gelado do quarto do hotel. Com as retinas incapazes de se moverem para outro ponto qualquer que fosse. Ela e aquele pedaço de cores delimitado por uma moldura cafona, pensou ele. Por alguns minutos um silêncio pousou feito neblina pelo quarto. Mesmo estando virado para a janela, oposta ao quadro, ele torcia o pescoço, suavemente, sem fazer barulho, para, mais uma vez, tentar enxergar qualquer coisa que fosse ali naquele maldito quadro, cada vez maior. Mas não conseguia, de jeito nenhum. Não via nada além de imagens patéticas ou pacatas ou as duas coisas juntas na pior combinação que se pode haver. Não sabia se tinha raiva de quem o havia pintado ou de quem o havia posto exatamente ali. Mas tinha raiva.
E não sabendo suportá-la dentro de si, perguntou:

– Cê vai ficar aí pra sempre?

Ela se virou, agora com o corpo todo, e abriu um sorriso antes de se jogar na cama junto dele. Rostos pertos, choque de hálitos.

– O que tanto você olhou ali?
-Bom. – ela riu – Não sei. Você não viu nada nele?
– Vi. Vi uma casa, um lago ou rio, não sei. Essa moldura estraga tudo.
– Tá vendo só? Você viu algo nele.
– Mas e você, poxa?
– Esse é o problema. Você não quer saber o que está no quadro, né? Você quer é saber o que eu vi nele, mas isso é impossível.
– Por quê?

Ela ergueu o corpo com os braços e sentou na beira da cama, dando as costas pro rapaz. Por sobre os ombros, falou:

– Porque você nunca vai enxergar o que está aqui. – apontando para a própria cabeça – Não importa o quanto você olhe por entre meus olhos, boca ou narinas, você nunca vai entrar aqui. E isso vai te frustrar. Vai te criar dúvidas sem respostas e te fazer sofrer. Depois, por fim, você vai me odiar. Ou pior, vai odiar a si mesmo.

Passos pelo corredor. Um vento faz a janela socar no batente e lá fora crianças gritavam como se brincassem em uma guerra.

– Cê me ama? – ele pergunta, baixinho.
– O que parece?
– Eu não sei.
– Então é isso. – responde, sorrindo.

As mãos abriram a mala que estava no chão e ela embarcou na busca de uma blusinha mais fresca. Ele, não. Com o canto dos olhos mirou novamente no quadro e esse, calado, parecia não ter opinião alguma sobre o ocorrido.

Por Luiz Bellini

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  1. Dziękuję nadzwyczaj w środku superowy tekst. Tego właśnie potrzebowałem. Jeśli chcesz owo polecam pozycjonowanie w Olsztynie jako dobrą formę reklamy.

  2. pra variar seus textos são ótimos. muito bom . Vai alem do que esta escrito.

  3. Fiquei tenso com a trama. Muito bem escrito, me prendeu do início ao fim.