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O sentimento que escapa

Suicídio, riqueza, ciência e reticência. Que tempos são estes em que morrer tornou-se banal, em que as riquezas alienam o próprio ser, e as ciências nos trazem respostas que não respondem a nada. 

Noturno à janela do apartamento

Silencioso cubo de treva:

um salto, e seria a morte.

Mas é apenas, sob o vento,

a integração na noite.

 

Nenhum pensamento de infância,

nem saudade nem vão propósito.

Somente a contemplação

de um mundo enorme e parado.

 

A soma da vida é nula.

Mas a vida tem tal poder:

na escuridão absoluta,

como líquido, circula.

 

Suicídio, riqueza, ciência…

A alma severa se interroga

e logo se cala. E não sabe

se é noite, mar ou distância.

 

Triste farol da Ilha Rasa.

 

Carlos Drummond de Andrade.

 

O “Sentimento do mundo”1  é o terceiro trabalho poético de Carlos Drummond de Andrade. Os vinte e oito poemas deste livro foram produzidos entre 1935 e 1940.  Trazem o olhar do poeta sobre o mundo à sua volta, um olhar crítico e político. É uma obra que retrata um tempo de guerras, do Estado Novo, do fascismo, do pessimismo com relação ao poder de destruição do homem.2

O poema “Noturno à janela do apartamento” é o último poema do “Sentimento do Mundo”, na qual o contexto desta obra encontra-se numa espécie de desconfiança aguda em relação ao que diz e faz. Se aborda o ser, imediatamente lhe ocorre que seria mais válido tratar do mundo; se aborda o mundo, que melhor fora limitar-se ao modo de ser. E a poesia parece desfazer-se como registro para tornar-se um processo, justificado na medida em que institui um objeto novo, elaborado à custa da desfiguração, ou mesmo destruição ritual do ser e do mundo, para refazê-los no plano estético. (CANDIDO, 2004, p. 67).

Os problemas individuais e sociais, do interior e exterior marcam a construção da lírica, na qual o eu-lírico expressa intensidade, reflexão e uma fusão do eu com o mundo. Acompanha também um tom dramático que denota um conflito do presente.

É na própria escrita poética que as contradições se apresentam como um eu estético. Certa melancolia, tristeza e dúvida permeiam o poema. Há uma intensidade na escrita que se expressa como uma busca, da ordem do impossível, pela compreensão deste social que se apresenta também como conflito interno. É nesta repetição que o poema ganha um movimento circular, através da conjunção adversativa “mas”, (Mas é apenas, sob o vento/Mas a vida tem tal poder) na primeira e terceira estrofe respectivamente, vida e morte parecem estar por um fio. 

Como diz Antonio Candido,

A poesia consistiria em trazer em si os problemas do mundo, manifestando-os numa espécie de ação pelo testemunho, ou de testemunho como forma de ação através da poesia, que compensa momentaneamente as fixações individualistas do “eu todo retorcido.” (CANDIDO, 2004, p.79)

O poema “Noturno à janela do apartamento” nos remete a um olhar. A janela é o recorte de um olhar determinado. Do olhar de dentro uma visão da escuridão do mundo, do olhar de fora: o apartamento, o apartar-se, a solidão, a separação. Um vazio, uma incompletude indizível. Com apenas quatro quartetos e um verso final isolado o poema passa a sensação de um saber condensado que produz um sentimento intenso na leitura.  Com versos de seis, sete e oito sílabas métricas, o ritmo é bem demarcado e homogêneo e as rimas com versos livres não apresentam regularidade.  

À noite é o lugar do silêncio, e o silêncio é o lugar do eu-lírico dar conta de sua angústia. A imagem do cubo, com seus vários lados iguais, são como o apartamento.  A janela, o lugar silencioso de uma profunda escuridão, as trevas. Mas veja que até para a História, o que chamavam de “Idade das Trevas” mostrou-se um tempo de muita criação. É na absoluta falta de luz que se contrasta uma abertura, uma janela que permite ver as sombras como na caverna de Platão.

Palavras se repetem, como os lados do cubo: noite, treva, escuridão, noturno, contemplação, mundo enorme e parado. A atmosfera é silenciosa e produz uma sonoridade que angustia, com a representação sonora do movimento do vento e do líquido.

Um salto da janela é o pensamento que passa. O pensamento de morte, que como vento, demonstra que pensar se dá em movimento. Silêncio e movimento, escuridão e abertura, assim se integra esta dialética unidade do eu-lírico.  

Nenhum pensamento de infância, pois a infância é um tempo da liberdade, do livre pensar, do pensar espontâneo. Tristeza é não poder carregar a infância por onde quer que se vá. São tempos em que nenhuma saudade preenche. Não! Nem aquela lembrança marcante e nem este vão que se abre como escuridão, mas que é vazio de propósito.

Mas no poema o que marca é o ato de contemplar. Se é que podemos falar em ato quando se trata de observar. Ora, é este mundo enorme e parado que está internalizado no eu-lírico. Que torna o eu enorme e parado.

A soma que deveria ser mais, torna a vida mais irritante, nula. Não é no excesso que a vida ganha em viver. É na escuridão absoluta, no silêncio arrebatador que circula o movimento – vento e líquido, aquilo que não se pega, escapa, apenas se sente. Algo do real. Como diz Lacan, “há toda uma parte de real em nossos sujeitos que nos escapa” 3.

Suicídio, riqueza, ciência e reticência. Que tempos são estes em que morrer tornou-se banal, em que as riquezas alienam o próprio ser, e as ciências nos trazem respostas que não respondem a nada. Aqueles que têm mais perguntas que respostas, pela tortura, logo se calam. E é neste não saber que a angústia tem algo a dizer. É neste vazio da escuridão profunda, da imensidão do oceano e daquilo que não se tem acesso imediato que o eu-lírico forma seu ser.

Na Ilha Rasa, de tão rasa, nenhuma embarcação podia atracar. Somente as potentes luzes do farol, branca e vermelha, dão a ilusão de alguma segurança necessária. Na Ilha, a prisão de José de Oiticica, que inspirado na Revolução Russa ousou sonhar. Mas são tempos em que sonhar está cada vez mais estranho, pois a tristeza é que no Farol da Ilha Rasa muitos são os presos políticos4 do Estado que se utiliza do “Novo” como palavra em vão.

por Marcelo Tomassini, psicanalista.

Referências:

1 – Andrade, Carlos Drummond – Sentimento do Mundo – 5ª. edição – Record , Rio de Janeiro – 1999

2 -Hobsbawm, Eric – A era dos extremos: o breve século XX – 1914-1991 – CIA das Letras 22º. edição – São Paulo 1995 discute os fatos marcantes do século XX. Seu título dá o tom do acirramento da luta de classes no breve século XX.

 3 – p. 13 – Lacan, Jacques – “O simbólico, o imaginário e o real” in Os nomes do Pai – Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

4 – Ilha Rasa foi local de presos políticos na época do Estado Novo.  https://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_Rasa_(Rio_de_Janeiro)

Candido. A. Inquietudes in Vários Escritos – 4ª. edição, reorganizada pelo autor. São Paulo – Rio de Janeiro – 2004. 

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