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O tempo pregado na parede

Ao adentrar a cozinha, à noite, carregando nas costas uma espécie de frustração trazida da rua, abro a geladeira em busca de água e, ao levantar os olhos, topo com aquele velho relógio de plástico, que, impávido, me devolve o olhar sem dizer nada.

É exatamente o mesmo relógio de semanas atrás que me viu chegar à cozinha extasiado de alegria e, tal como hoje, nada disse. Permaneceu rente à parede, tranquilo a mexer seus ponteiros, cético, como se soubesse da curta duração que teria minha felicidade.  Maldito fiel servo do tempo, incapaz de gastar um tiquinho que for de seus infinitos segundos para jogar uma conversa fora. Alheio aos sentimentos, somente o eterno movimento lhe importa. Sempre no mesmo lugar, nunca no mesmo instante.

Após estas frustradas investidas de minha parte em iniciar uma conversa, fui tomar um banho e, com a água quente escorrendo pelo corpo, senti-me um tanto quanto idiota por ter, minutos antes, haver tentado, já não pela primeira vez, obter qualquer tipo de diálogo com o relógio lá da cozinha. E percebi, sem refletir muito, quão fácil era pra mim ter-me como tolo durante o banho. Era só a água começar a cair que – lá vem uma metáfora qualquer – parecia limpar e levar pelo ralo muito além das superficiais impurezas recostadas na pele após mais um dia como tantos outros. Creio, que, esta facilidade em sentir-me tolo durante o banho, decorre principalmente do fato de eu estar nu. Só se pode ver, em plenitude, a sua completa insignificância, quando se está pelado. Por isso o amor e a devoção das pessoas por roupas.

Mas saí do banho e, ainda de toalha, voltei para a cozinha atrás de um gole d’água. Fiz forças e me concentrei – apesar de ser péssimo nesta nobre função – para não cair à tentação de olhar para aquele maldito relógio. Mas foi em vão, sempre é. Resistir à vontade é ato falho, principalmente àquelas que se postam como fáceis e frívolas. São as mais sedutoras. E eu olhei – sempre olho. E fiquei bravo como antes já havia ficado. Porque não era apenas aquele maldito relógio de bordas de plástico de branco sujo pelo pó condominial quem vem sei lá de onde.

Era o tempo, e só ele.

Aquele mesmo que você está pensando; o que corre em disparate e o que também se arrasta. O que ensina e em ocasiões – frequentes – apenas perpetua a ignorância. Todos e em um só. Perfeitamente posto em forma circular de plástico. Uma fantasia cafona para um espectador vulgar.

Arranquei-o da parede e taquei no lixo. Reciclável, é claro. Deixei-o lá, só por esta noite, quem sabe reflita e pense em evoluir um tiquinho sua empatia. Fui, então, até o quarto e me vesti. Respirei aliviado. As coisas pareciam estar de acordo. Só pareciam; por hoje basta.

por Luiz Bellini

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