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Ode à impotência

Vivemos um tempo de impotência, onde alguns poucos decidem por nós o que será daqui pra frente e não tem greve, manifestação, vozes contrárias nos plenários, que mudem o rumo dos acontecimentos. Assistimos e só, tendo cada vez mais a triste certeza de que nossas vontades nunca chegarão a atravessar o campo dos desejos. Até os avanços de tempos atrás (que hoje parecem ainda maiores quando olhamos os desmontes que estão realizando) só foram possíveis com o consentimento da Casa Grande, a eterna soberania brasileira, que, mesmo mudando de nome ou forma no decorrer da história, continua ditando, em nome dos mesmos poucos, a regra do jogo.

A Reforma Trabalhista é um retrocesso de anos. Algo terrível contra os trabalhadores, pensada e votada por “políticos profissionais” que já não lembram – ou nunca souberam – como entrar num ônibus. Assim, fica cada diz mais claro: tirar Dilma foi um primeiro passo na imposição de uma agenda ultra-conservadora. Prender ou inviabilizar Lula será a confirmação de sucesso desses desmontes.

Criaram uma fantasia para inviabilizar Lula como candidato em 2018 e não veem maneira de desfazer as amarras que eles mesmos criaram. Num processo esquizofrênico, não só imaginaram um castelo, mas vivem dentro dele e acham que são reis. Particularmente, no que compete às acusações e as provas (ou ausência delas), não é possível me opor ao ex-presidente Lula, sem que isto me impeça ter críticas políticas à seu governo. E é isso que deveríamos esperar de um país democrático: se querem inviabilizar Lula, que façam na urna. Mas, aqui é diferente. Como Lula mesmo ressaltou:

Meus acusadores sabem que não roubei, não fui corrompido nem tentei obstruir a Justiça, mas não podem admitir. Não podem recuar depois do massacre que promoveram na mídia. Tornaram-se prisioneiros das mentiras que criaram, na maioria das vezes a partir de reportagens facciosas e mal apuradas. Estão condenados a condenar e devem avaliar que, se não me prenderem, serão eles os desmoralizados perante a opinião pública, Lula.

Engraçado não fosse trágico, que a tática utilizada para combater projetos de governos mais inclusivos seja, mais uma vez, o da “corrupção seletiva”. Não interessa aos grandes grupos econômicos, tampouco a seus pares no Congresso nacional e na mídia, acabar com corrupção no Brasil. Pelo contrário, é necessário sempre tê-la à altura da mão para, manipulando-a, combater seu verdadeiro inimigo: a ideia de um Estado mais inclusivo.

Não assustará, dado o antagonismo que criaram por essas terras, rever, numa versão moderna e substituindo o acusado, a sentença que deram a Tiradentes:

(…) Portanto condenam ao réu Luiz Inácio Lula da Silva, a que com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca e nela morra de morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça, aonde em lugar mais público dela será pregada, em um poste alto até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregado em postes pelos caminhos do Brasil, aonde o réu teve as suas infames práticas, e os mais nos sítios de maiores povoações até que o tempo também os consuma

Em uma sociedade que, após anos de ditadura, cresceu acreditando numa potência da retomada democrática, num suposto progresso natural da política e, por que não, da própria sociedade em si, ver as dereformas ganhando vida pelas mãos de homens que nada são além sobrenome e ambição, beira mesmo a utopia. Mas, de utopia, nós, brasileiros e latino-americanos, entendemos muito bem, não é mesmo? Pena ter de ser sempre o lado mais cruel dela.

por Luiz Bellini e Pedro Veríssimo

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