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Pessoas perdidas procurando não se encontrar

Ele me disse que estava perdido. Eu, que estava olhando pro outro lado rua enquanto acendia o cigarro, voltei meus olhos para os seus e percebi neles certa sinceridade. Indaguei, então, em qual sentido ele poderia estar perdido. Respondeu, creio que agora com certa angústia, que em todos. Todos os possíveis, completou. Pus o copo de cerveja de volta à mesa e respirei bem fundo. A última coisa que se espera numa mesa de bar são verdades, principalmente verdades como aquela, as honestas e perturbadoras.

Pedi para me contar quando, de fato, se tocou dessa situação e, sem esperar eu terminar a pergunta, pôs a lembrar-se de um dia qualquer em que havia acabado de sair do trabalho e ao andar pelo caminho que fazia todo dia em direção ao ponto, avistou seu ônibus vindo e, dado a distância considerável em que estava, resolveu correr para não perdê-lo. Com a mochila pesada e um desses tênis bonitos mas extremamente desconfortáveis, me contou que correu da maneira mais esdruxula e heroica que podia. Quando já estava no mesmo quarteirão do ponto sentiu aquele calor proveniente da enorme massa de metal sobre rodas vindo atrás de si e resolveu virar o corpo no intuito de estabelecer uma comunicação visual para com o motorista, a fim de demonstrar que estava dando seu máximo para chegar a tempo.

O motorista olhou para ele por um breve momento e sem demonstrar qualquer afeição, virou imediatamente o rosto para frente e, não tendo ninguém no ponto, passou sereno e rasante. Já meu amigo ficou lá, ofegante. As mãos apoiadas nos joelhos e seu destino indo convicto para outro lugar.

Ele riu um pouco ao terminar de me contar essa parte. Um riso frouxo, triste. Então disse que, de repente, sentiu uma agonia tremenda partindo do pé até a cabeça. Era algo como medo, dizia, mas também podia ser raiva. Nunca soube muito a diferença. Os prédios em volta começaram a ficar cada vez maiores e tudo ao seu redor tomou um ar sombrio e amedrontador. Acho que ele experimentou pela primeira vez o real significado da insignificância. Pensei em dizer isso, mas me contive, já que não fazia ideia de como isto poderia ser recebido. Disse apenas que era um caso excepcional, um motorista mal-educado, coisa assim.

Ele então encheu o peito de ar e disse que não, não. Que esse não havia sido o maior problema.  Foi somente o que desencadeou os outros. Possuído pela raiva, pôs a dizer para si mesmo que isso não era vida, de jeito nenhum. Ficou lá no ponto mais alguns minutos preciosos esperando outro ônibus e outros tantos minutos mais no trânsito. E em todo esse percurso elaborou centenas de projetos que poderia começar. Projetos que pudessem elevar sua autoestima, liberando seu lado artístico, humanitário e, por que não, econômico.

Ao descer no ponto perto de sua casa tinha uma fila enorme deles, os projetos, e nenhuma ideia para torna-los real. Foi então, em casa, sozinho, que aí sim, se viu na pior condição de todas; perdido. Bom, fez o que todo mundo pode fazer numa hora dessas. Tomou um banho, chorou em seco e foi dormir.

Ao terminar seu relato, três cigarros depois, ele passava a mão na cabeça e olhava para algum lugar inexistente do outro lado da rua. Eu, que ao meu ver estava na obrigação de dizer algo, contei que não dá para procurar algo que você não sabe o que é. Ele deve ter achado bonita esta frase, pois obtive de novo sua atenção. Contei que era como estar com fome numa hora improvável de um dia tão improvável quanto. Você pode até sair caminhando pelas ruas mas não irá encontrar lugar algum que possa comer. Alguns estarão fechados, outros serão caros demais para o seu bolso. Então lá estará você, caminhando a esmo e pior, com fome. Você arma sua própria armadilha, basicamente. Sendo assim, até você descobrir onde ou o que irá comer, é melhor ficar em casa, deitado, fazendo de conta que ela, a fome, não existe.

Ele pareceu ficar frustrado com minha resposta, que nada tinha de elevada sabedoria compactada ou misticismo intrigante.

– Cara, acho que isso não tem nada a ver com fome. – ele falou, voltando brevemente o olhar para o nada, do outro lado da rua.

– Não, mano. É sempre sobre a fome. – respondi.

Assim nos calamos um pouco e voltamos a beber. Abstêmios de verdades, enfim rimos um pouco.

por Luiz Bellini

Bellini Cartum 1

 

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