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Quando a aldeia queimou

A novidade logo se espalhou por toda a aldeia. Não se sabe bem quem foi o primeiro, mas o boato correu e em pouco tempo todos sabiam que havia algo novo lá em cima. Falavam pelas praças e vielas sobre quão brilhante e quente era a tal novidade. Os de cima enchiam o peito para contar sobre o que guardavam em seu recinto e os de baixo, fiéis á sua ingenuidade, ansiavam pelo momento em que poderiam olhar para aquilo e sentir, como pouquíssimas vezes haviam antes, o estranho adentrar sua retina e contemplar o seu corpo todo com prazer tão raro e exclusivo.

A aldeia passava por alguns problemas, nada demais, é a vida. Uma pequeníssima parcela insatisfeita, outra buscando ficar e a maior suportando como sempre fez. Então, num domingo, alguns lá de cima, irromperam o tédio absoluto com a decisão de finalmente mostrar a novidade.

Era o fogo.

Uma pequena e bela chama, balançando para um lado e para o outro, a jogar seus cachos de luz violenta. Era pequena, porém se envaidecia e crescia um tiquinho a cada vez que uma boca punha-se a dizer coisas agradáveis sobre ela. Passaram a anunciá-la como a salvação, a única e possível salvação. Não que estivéssemos na pré-história, longe disso. Havia já a luz, a água, e a eletricidade corria pelos fios e postes da pequena aldeia. Mas nada, eles diziam, nada se comparava com aquela chama. Era diferente, era única.

Então, sem que fosse possível notar, a chama tornou-se a resposta para toda e qualquer adversidade que a aldeia enfrentava e, com medo de parecer atrasada, grande parte da população passou a acreditar que era mesmo. Colocaram-na em um suporte e puseram na caçamba de uma caminhonete. Ao lado dela vinha um dos lá de cima, mexendo o braço com desenvoltura e utilizando palavras tão bonitas que tornava-se difícil não se ludibriar com os feitos que somente aquele teco de fogo poderia realizar. Levaram-na até um palanque, patrocinado por empresas de gosto popular e, postada lá em cima, a chama crescia com as ovações e as danças feitas especialmente para elas. Houve também shows, é claro. Grandes artistas consagrados de décadas passadas que enfrentavam, até o presente momento, dificuldade em se adequar aos dias de hoje, passaram a ter novo reconhecimento e ostentaram suas vozes, sem aparente remorso com a incongruência destas atitudes com as composições cantadas por eles mesmos no começo de suas carreiras.

A chama ia crescendo sem rédeas. Agora residia no centro, lá na praça principal, aos olhos de todos. Alguns, entretanto, começaram a questioná-la. “Sim, é bonita, mas perigosa também”, diziam. Perguntavam se aquele fogo, aquela chama e tão somente ela, poderia ser a resposta para tantas dúvidas que décadas não foram capazes de responder. Como resposta receberam socos, chutes e outras tantas agressões verbais, além de farta ironia que antes serviam-lhes como pedestal. Desmoralizados, foram para o escuro e, temendo a vida, selaram a boca com a cola do medo.

Um dia o vento soprou mais forte.

Soprou como um golpe sútil.

E a chama, imensurável em tamanho, passou a tocar algumas casas e estas não foram capazes de aguentar sua força, e aceitaram, com o ranger da pintura descascando, o triste destino de tornar-se parte do fogo. Pulando de um lar para a outro, a labareda subjugou toda a aldeia. Blitzkrieg! Começou por baixo, levando os mais frágeis e suas casas. Depois os que pensavam estar salvos e por último, alcançou os lá de cima, que, não se sabe quando ou como, já estavam longe, sentados em um enorme sofá assistindo o desastre numa transmissão ao vivo feita com modernos helicópteros.

E quando a aldeia por fim queimou, não restou praticamente nada. Alguns lá de baixo, em estado de transe, pulavam por entre as chamas atrás de seus pertences, seu jogo de panelas, televisões recém-adquiridas e parcelas não pagas. Os do meio não sabiam mais a quem culpar. Sentados, abraçaram os joelhos e tiveram, com os olhos forçosamente fechados, de encarar a si mesmos. Não enxergando nada, choraram como crianças sem mãe.

Quando a aldeia queimou, foram atrás dos lá de cima e eles nada sabiam. “Fogo? Nunca acendi nem um cigarro”. Mais uma tragédia bastarda, algum jornalista digitou na tela do computador antes de ser repreendido de forma bem educada e intimidativa por um dos superiores.

Quando a aldeia queimou, ficaram apenas as cinzas. Passeando de carona pelo vento e irritando os olhos já enfurecidos. Ficaram apenas as lembranças, histórias de um dia que nossa, veja só, era melhor. Mas lembranças não podem ser tocadas, nem bebidas, nem muito menos feita de almoço e, chutando os destroços pelo chão, nenhuma esperança parecia ter asas para ressurgir.

por Luiz Bellini

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