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Quem precisa de “Redenção”?

As palavras têm peso. Têm história. Nosso entendimento delas se constrói com o tempo e entender esse movimento é importante para uma leitura mais atenta de alguns fatos. Recentemente o prefeito João Dória decidiu criar o programa “Redenção” prometendo acabar com o problema da chamada Cracolândia. Redenção, em uma primeira definição, é o ato ou efeito de redimir, libertar ou salvar alguém de algo. Em um país cristão como nosso, esse significado vem acrescido de forte tendência religiosa. Redenção, nesse caso, é o resgate da humanidade pelo salvador, que teria o poder de nos livrar do pecado e garantir nossa vida eterna. E se as palavras tem peso, o ato de nomear é extremamente significativo. Dar nome é interferir na natureza daquilo que se nomeia. Foucault, Bakhtin e Laclau se dedicaram sobre todas essas questões. Por isso que nomear uma política pública de “Redenção” pode ser ainda pior do que parece.

O psiquiatra e professor da UNIFESP, Dartiu Xavier, afirmou recentemente à CartaCapital que a melhor forma de tratar um dependente químico não é pela internação compulsória. Primeiro porque ela é muito mais cara aos cofres públicos e depois porque é menos eficaz, já que a grande maioria dos pacientes recai. Experiências de programas com essa linha indicam que são mais de 90% aqueles que voltam ao consumo de drogas. Além disso, é necessário pontuar que o problema da Cracolândia, diferente do que o nome supõe, não é o crack, mas a miséria social e o completo descaso do estado. A droga é uma consequência. É por isso que Dartiu Xavier, à luz de diversas experiências mundo a fora, defende que o que deve ser privilegiado são políticas públicas que melhorem a qualidade de vida daquelas pessoas, ou seja, que atuem na causa: a pobreza extrema.

O Programa “Braços Abertos” criado na gestão Haddad adota um modelos de “redução de danos”, que entende a importância de fornecer os meios para que aquelas pessoas não precisem mais da droga. Já falamos disso AQUI. Mas queria me atentar às palavras. O que quer um político que cria o programa “redenção” e o que quer um político que cria o programa “braços abertos”?

As premissas são diferentes, sobretudo no que diz respeito ao entendimento do crack como consequência ou causa, mas mais que isso é a ideia não dita “por trás” de cada escolha pelo nome. Enquanto os “braços abertos” falam de acolhimento e união na superação de um problema, a “redenção” pressupõe uma entrega forçada aos desejos de um salvador, que tem nome e endereço.

Marx dizia que a propriedade privada é a base de nossa avidez e que disso dispõe nosso entendimento de algo como nosso só depois de nos apropriarmos unilateralmente dele. Ou seja, propriedade pressupõe posse. Daí uma das razões de nosso mau-relacionamento com o espaço público. Não há posse, logo não é nosso. Mas o prefeito-empresário, que prometeu conduzir a cidade como uma de suas empresas, insiste em tê-la como sua, mas não enquanto mais um morador, mas como seu dono e único capaz de resolver seus problemas. O redentor que nos livraria dos desmandos da farra pública, dos gastos exagerados e da corrupção. Um gestor que se pretendia eficiente.

Esquece, porém, que a cidade não é sua empresa e decisões devem ser, sempre, coletivas. Falar em diálogo e participação popular como uma das formas avançadas de democracia nas cidades pode parecer chover no molhado. “É evidente”, dirão. Mas não parece tão simples assim, principalmente para aqueles que agora detêm o poder de escolha. As pessoas que moravam na Cracolândia não foram escutadas. Os especialistas tampouco. As experiências internacionais foram ignoradas. Assim também foi com as ciclovias e o aumento de velocidade nas marginais. O contrário se deu com a elaboração do Plano Diretor de São Paulo na gestão passada, que contou com intensa participação da sociedade. Foi, inclusive, premiado na ONU como um dos quatro ganhadores do mundo das “Melhores Práticas Inovadoras da Nova Agenda Urbana” da ONU Habitat.

Por fim, talvez o problema seja justamente o salvador que pretende a redenção dos miseráveis. A cidade não merece ficar à disposição dos desejos de um empresário, incapaz de ouvir opiniões contrárias às suas.

Obs.: em tempo, pouco antes de publicar este texto leio que Dória teve a habilitação suspensa por conta de multas, inclusive nas marginais.

por Pedro Veríssimo

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