Home / Política / Reflexões sobre nossa democracia (ou Você não está fazendo sua parte)

Reflexões sobre nossa democracia (ou Você não está fazendo sua parte)

Completado um ano do Golpe de #ForaTemer e da maioria dos deputados e senadores, fica difícil não refletir sobre que tipo de democracia temos no Brasil e o quanto as coisas pioraram nesta volta que a Terra deu em torno do Sol. Tenho claro para mim que não vivemos numa ditadura, no entanto é possível afirmar que estamos longe de sermos um Estado democrático.

Honestamente, nem acho que tudo é culpa do presidentinho. Acredito que o golpe apenas evidenciou como nosso sistema está verde e apodrecendo antes de amadurecer. Mas também evidencia que, mesmo vivendo duas décadas sob uma ditadura militar, nossa sociedade não aprendeu a valorizar as características da democracia. Ao ponto de uma minoria estridente pedir a volta dos milicos ao poder.

Após a ditadura, nosso Estado instituiu o voto obrigatório e o multipartidarismo como nossos maiores valores democráticos, passando a impressão para a sociedade que essas duas ferramentas são únicas e suficientes para lidar com as complexas questões de um país que tem quase o tamanho de um continente (é sempre importante lembrar disso. Por mais que a Globo só mostre Rio, São Paulo e Brasília, somos bem maiores que isso).  Não vou entrar no mérito de qual foi a intenção com isso, o que importa é que a maioria esmagadora aceitou essa ideia e pratica essa “democracia” num período que dura no máximo 70 dias dos anos pares.

Além de ter sido apresentada a uma visão restrita de democracia, a sociedade brasileira exercita pouco o voto e este, por ser obrigatório, ainda é visto mais como uma atividade enfadonha do que como uma “celebração da democracia” como a Justiça Eleitoral costuma propagar.

Participação cidadã, pluralidade de opinião e direitos sociais são valores que tiveram pouca aderência social, no entanto são questões de base para uma sociedade que se diz democrática. Não estou dizendo que a maioria é contra essa lista, apenas estou dizendo que ela não se importa ao ponto de se mobilizar pela defesa. Conseguimos criar uma sociedade em que a maioria simplesmente não liga para questões que vão além do cotidiano. Um detalhe sórdido desse sistema: presidentes, prefeitos, governadores, senadores, deputados, vereadores, juízes, procuradores e promotores saem dessa sociedade e refletem a opinião dela.

A única forma de combater essa versão beta de democracia que sempre tivemos é trabalhar por mais aderência social a outros valores caros ao sistema. As pessoas precisam sair do transe que as consomem no dia-a-dia e entender que votar na eleição é uma pequena fração de contribuição que elas têm de dar à sociedade. Que melhorias são consequência de um processo contínuo de participação e debate e não por um toque de condão de um iluminado qualquer.

Discutir democracia não é um assunto fácil. Estudiosos ainda não chegaram a um consenso sobre o assunto, o que faz valer a velha máxima de Winston Churchill, “a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”. No entanto é preciso reconhecer que, no caso do Brasil, é preciso debater socialmente a importância de valores democráticos essenciais como, por exemplo, a pluralidade de opinião e a convivência pacífica com as diferenças. Aqui não estou falando apenas da histeria que é fruto da briga entre esquerdistas e direitistas. Falo também do voto em lista fechada, proposta numa reforma política feita com pouco debate, engavetada no passado e desengavetada agora com o objetivo de proteger parlamentares envolvidos na Lava Jato. Uma ação como essa, se aprovada, pode diminuir a chance de candidatos identificados com determinadas bandeiras de obterem coeficiente eleitoral.

Em suma, não será este texto o sinal de despertar deste transe social em que a maioria se encontra. Porém, convido as pessoas que se identificarem com esta causa a promoverem mais os outros valores democráticos tão necessários e que sempre foram deixados de lado.

por Luís Marcelo Marcondes

Comments

comments

Veja Também

A conveniência e coerência tucana

Fernando Henrique Cardoso é um termômetro de como a situação política nesse país está difícil …