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Toninho Café e a inexistência

Posso afirmar que não existe coisa mais atraente do que finais trágicos. Os felizes, ou de superação, bem ao estilo hollywoodiano, podem até nos entreter ou acender uma palha de esperança por algum momento que for, mas são os finais trágicos e tristes que fincam moradia em nosso consciente. Eu não sabia disso, ou preferia não saber, até conhecer a história dele: Toninho Café.

Não lembro o ano nem muito menos o mês ou dia que comprei aquele disco. O horário, sim. Naquela época costumava ir pelo fim da tarde no Sebo Alternativa. Zé parecia mais disposto a dar descontos naquele espaço de tempo. Passeando com os dedos pelo montante de discos encontrei o de Toninho. Confesso que a primeira impressão foi mais de graça. “Toninho Café” é um nome que em sua simplicidade torna-se único. Nome de ponta-esquerda do time da firma ou de amigo de seu tio pedreiro, mas não de músico. Fiquei olhando a capa com aquele homem de pele bem escura e sorriso largo, ao lado de um São Jorge desenhado em meio a selva num tom sépia, e decidi levar pra conferir.

Ao colocar o disco para ouvir a surpresa foi enorme. Era bom, muito bom. Dizer que era algo que nunca tinha ouvido é demais, mas me assustou atestar a qualidade daquele som, principalmente por nunca ter sequer ouvido falar naquele artista. Fascinado com o que ouvia e envergonhado por não saber, resolvi ir atrás da mamãe Google e ver o que ela dizia. Aí veio outra surpresa, dessa vez nada agradável. O que encontrei foi quase nada. Uns blogs individuais de pouco acesso, umas imagens (todas da capa do álbum) e alguns anúncios de venda no Mercado Livre. Porém, nada de uma página, mesmo daquelas mal escritas e desconfiadas, do Wikipedia. Bom, não sejamos demagogos, nos dias que vivemos, não possuir uma página por lá é um sintoma considerável de obscuridade, o que é praticamente não existir para um artista.

Confuso, resolvi entrar num blog qualquer e após uma leitura superficial pude constatar de que se tratava de um texto minimamente confiável, onde a autora ou autor parecia de fato conhecer a história de Café. O que li naquele texto eu tentei descrever posteriormente de diversas maneiras, muitas vezes prolongadas ou eloquentes demais. A tragédia nos incita a retratá-la de uma forma mais rebuscada e cheia de enfeites, muito talvez por tentarmos assim encontrar uma resposta para seu acontecimento. Entretanto, diferente das tais histórias felizes, as tristes podem ser contadas de forma rápida sem perder a intensidade que as acompanham.

Assim, eu lhes digo: Toninho Café cometeu suicídio na França no final de 2011.

toninhoSomente o suicídio por si só já bastaria pra chamar atenção ou proporcionar questionamentos. Quer final mais melancólico e intrigante do que aquele que você impõe para sua própria pessoa? Só que a história do cantor de certa forma explica (porque justificar é muito pessoal) seu fim. Nascido em Belo Horizonte, Toninho mudou-se para o Rio e lá fez parte de algumas bandas, em sua maioria bandas de bailes de subúrbio. Após participar de alguns álbuns como músico de apoio, como o hoje cultuado disco de estreia de Arthur Verocai, Toninho lançou o seu primeiro álbum solo em 1978. Sabe se lá por que, o disco não recebeu muita atenção da crítica nem tampouco obteve uma divulgação considerável pelas rádios. Morreu. O cantor, por sua parte, ao que parece gravou alguns outros compactos e só. Mudou-se para a França nos esquisitos anos oitenta e parece que até preso foi. Envolvimento com drogas, segundo conta o texto.

Um gosto amargo e seco desceu pela minha boca enquanto o disco ainda rolava. Até mesmo as músicas mais animadas do álbum pareceram adquirir um ar de melancolia. Não fazia sentido. Setenta e oito? Porra, a MPB estava no auge e principalmente os mineiros (Borges, Guedes e o carioca amineirado do Milton), com os quais a música de Toninho tinha enorme semelhança, gozavam de um forte prestígio na época. Bom, talvez a gravadora realmente não tenha se empenhado para divulga-lo, é a resposta imediata e trivial. Mas como, como mesmo, esse homem não teve uma segunda chance? Falo além dos compactos, que sabidamente nunca foram lá muito populares no Brasil. Como nenhum outro artista cantou alguma canção de autoria ou sei lá, chamou para fazer uma participação ou coisa fanfarrona do tipo?

O fim trágico então não está lá em 2011. Toninho morreu muito antes.

Dizer isso é quase como resumir a vida inteira de um artista por seu material. E no final das contas ela é mesmo. Não que o cantor não tenha posteriormente sorrido em uma mesa de bar com os amigos ou tocado para uma pequena porção de transeuntes num parque florido da França, o que certamente deve ter feito. É que seu disco precisou nascer para se comprovar morto. Ignorado, esquecido, muito diferente dos malditos, que mesmo sob essa alcunha sobreviveram e sobrevivem fortes em seu meio.

E é essa história que me vem acompanhando desde então. A cada devaneio no transporte público sobre um futuro artístico, é a imagem de Toninho que me vem. Não a da capa, com ele sorrindo (ironicamente a única que se tem dele), mas uma triste, do cantor sentado em uma estação qualquer do interior da França esperando o trem chegar enquanto o inverno vem suavemente cutucar sua espinha. A pele marcada pelo tempo e o olhar pelos fracassos.

E sei o quão ridículo é ter um medo baseado no destino alheio. Ridículo e corriqueiro, afinal, a gente vive sonhando com o sucesso de uns e perdemos noites de sono com o destino mal fadado de outros. Miller e Bolaño já falaram sobre a inexistência (no caso deles, literária) dos “pequenos”. Milhares e milhares de livros são lançados todos os anos e mesmo assim somente os grandes existem. Qualidade? Originalidade? É injusto dizer que aquele ou aquela não tenham isso, justamente porque não são lidos. São como um suspiro que se ouve por alguns metros e logo se junta a tantos outros e se fundem com o vento sem nunca fazer barulho. Mas o artista não consegue ficar calado, tem de abrir a boca. Não importa se dali saia um som efêmero ou um grito estrondoso.

E aqui eu de novo como tantos, sei bem. Em um quarto escuro com medo de abrir a porta e não saber o que encontrar. Sentado na cadeira do comodismo, onde é mais fácil estar para poder medir o tombo dos outros. E como são fortes, os que caíram sem estátuas póstumas ou memorando em papel cartão. Por um momento deixo o rosto de Toninho sorrir de novo e assim ele vive. Pouco que for.

texto por Luiz Bellini / ilustração por Felipe Mascarenhas

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One comment

  1. Boa noite, Casca de Noz.
    Belo texto e homenagem. Estou chocado com essa notícia. Hoje revirando a discoteca achei este bolachão que adquiri na época. Vitória Régia foi a música que desde então, 1979 até hoje, volta e meia relembro. Letra sublime e que dá um resumo deste nosso Brasil.
    Fiz o mesmo que você e tentar achar o que houve com o grande Toninho Café. E achei então este seu texto.
    Obrigado.