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Uma conversa dentro de um carro numa estrada

– Eu acho que ando sonhando demais.
– Do que cê tá falando? Anda dormindo muito?
– Não, não tem nada a ver com dormir. Lógico, enquanto durmo também sonho bastante, mas estou me referindo sobre sonhar acordado.
– Bom, você quer dizer que anda pensando muito na vida… Isso?
– Não, cara, eu falo sobre sonhar mesmo. – ele responde e por um instante retira a atenção da estrada e volta o olhar para o amigo na função de passageiro.

O amigo saliva a boca procurando lamber alguma palavra para servir de resposta e nada encontra. Pressiona o botão para descer o vidro e, já com um cigarro na boca e o isqueiro na mão, pergunta ao outro se pode acender. Com um acenar de cabeça recebe a permissão e assim raspa o polegar no Bic, produzindo a chama. Aceso, sente-se à vontade.

– E do que afinal se trata estes sonhos? – ele pergunta e solta fumaça, com o cuidado para que toda ou boa parte da dela saia devidamente para fora do carro.
-Acho que se eu tivesse que nomeá-los, e eu sei que tudo nessa vida precisa de um nome para existir, diria que são remédios. Pílulas analgésicas, talvez. Ou também pode ser alguma droga com alto grau de dependência. Acho que isso, de dizer o nome, depende mais de quem me vê do que como eu me sinto.
– E quando começou tudo isso?
– O dia em que topei com minha insignificância no espelho do banheiro lá de casa. Fui desprevenido mijar e ao invés de ver meu rosto, como na maioria das vezes, enxerguei o que existe atrás dele. Me apavorei. Fiquei parecendo uma criança que a mãe deixou brincar sozinha no parquinho do shopping e após se divertir e as fichas acabarem, chama pela mãe e não encontra ninguém. A diferença é que já sou velho e não havia ninguém que meu orgulho recomendasse chamar. Então me escondi debaixo do edredom antialérgico e rezei com o pouco que lembrava para poder dormir o mais rápido possível. O sono veio em algum momento e, junto dele, para minha surpresa, um sonho maravilhoso. Tudo era bonito, tudo estava ao alcance de meu toque. Vi sorrisos por todas as partes e no espelho que tinha por lá nada em meu corpo tinha defeito. Revivi alguns momentos de prazer e até aqueles que me doeram um dia agora pareciam ter mudado o roteiro. Porém, quando acordei foi pura decepção. Era como se tivessem roubado todas as riquezas que nunca tive. Olhei para o quarto naquela penumbra e soube, naquele exato instante, que se continuasse a viver tendo que olhar minha insignificância no espelho todos os dias, não aguentaria lá muito tempo.
– O que você fez então?
– Fiz o que a maioria das pessoas fazem quando tem essa opção; Abdiquei da realidade para poder respirar sem me doer o peito.

O passageiro arremessa o cigarro pela janela e ao cair no asfalto a brasa explode em um belo espetáculo de proporções minúsculas, pequeno demais para chamar atenção.

– E porque você está me contando isso?
– Não sei, amigo. Acho… Acho que…. – engole um pouco de ar – Porque todo remédio, usado em exaustão, perde seu efeito. Porque toda droga, depois de um tempo, perde seu prazer e vira apenas tortura.

Ele diz isso e, após abrir a boca para despejar aquelas palavras, sela-a com um sorriso sem jeito, pouco elástico, mas firme. Aquilo mexe com o outro, que ouviu, e, sem conseguir botar em ordem tudo que lhe passa correndo pela cabeça, ocorre que a qualquer momento, sem prévia, dependendo do que for dito, pode chorar.

– E o que eu… O que eu posso fazer pra te ajudar?

O motorista vira o rosto por alguns instantes para o passageiro e alarga o sorriso.

– Não sei. Achei que uma palavra amiga pudesse me acalmar, me trazer de volta, assim devagar, sem que eu me espatifasse quando caísse no chão novamente.
O silêncio toma conta do carro, não há problema algum nisso. A estrada continua sem forma, mas a distância, na companhia de um amigo, parece diminuir.

por Luiz Bellini

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